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| QUARTA-FEIRA - DIA 30.11.2005
Edição e Seleção Humberto Napoli Licursi
Jornal "Folha de S. Paulo"
Opinião
KIRCHNER SE FORTALECE O presidente da Argentina, Néstor Kirchner, aproveitou o fato de que teria de fazer mudanças em seu ministério para dispensar o titular da Economia, Roberto Lavagna, e aumentar sua influência nessa área estratégica do governo. As trocas eram necessárias porque vários ministros conquistaram mandatos no pleito de outubro, no qual a Casa Rosada se saiu bastante bem. Lavagna sai não porque tenha se tornado um parlamentar ou a economia esteja indo mal, mas para permitir ao presidente controlar mais de perto o rumo das finanças argentinas. Ele era uma herança do governo anterior. Em 2002, para acalmar os mercados, Kirchner se viu compelido a anunciar que o manteria. Foi só agora, após o êxito nas legislativas, e já com um cenário econômico bem mais favorável, que o presidente se sentiu forte para removê-lo. Em seu lugar entra Felisa Miceli. Em termos ideológicos, ela é bastante próxima a Lavagna, mas tem pouca projeção política, de onde se infere que ficará mais sujeita às influências e humores do presidente. As outras substituições no gabinete seguem nessa mesma linha. Kirchner parece disposto a consolidar sua força também no plano externo. Depois de ter assistido às movimentações de um Lula em campanha aberta por uma vaga no Conselho de Segurança da ONU, o mandatário argentino aproveita agora o mau momento do presidente brasileiro para acenar com uma aliança com a Venezuela de Hugo Chávez. O caudilho de Caracas, subitamente enriquecido pela alta internacional do petróleo, deverá associar a Venezuela ao Mercosul já em dezembro. Juntos, Kirchner e Chávez podem mais do que sozinhos para contrapor-se ao protagonismo que o Brasil exerce no bloco. A dificuldade, como sempre, é confiar em Chávez. Com uma única frase, ele pode destruir meses ou mesmo anos de intensas negociações diplomáticas.
Caderno: Dinheiro
O dia 30 de novembro e a amizade Brasil e Argentina CELSO AMORIM E RAFAEL BIELSA A aliança estratégica entre o Brasil e a Argentina não é um imperativo do destino, mas sim um projeto político de extraordinária importância para as duas nações. Na história das relações entre nossos países, foi preciso percorrer um longo caminho para superar as rivalidades -mais artificiais que reais- e instalar definitivamente a amizade como princípio ordenador do vínculo bilateral. A Declaração de Iguaçu, firmada pelos presidentes Sarney e Alfonsín no dia 30 de novembro de 1985, constitui um marco nesse processo de aproximação e de construção da amizade. A construção de uma paz sólida e duradoura, a afirmação dos laços de amizade e cooperação e a consolidação, nos dois lados da fronteira, das democracias recém-recuperadas são fruto daquele acontecimento histórico. A conformação do Mercosul -o mais promissor entre os projetos de integração regional de que tenhamos participado- materializa o sentido daqueles acordos: muito mais que um mero acordo comercial, o bloco constitui um projeto audacioso e efetivo, orientado para o desenvolvimento de nossas economias e para o fortalecimento da capacidade dos dois Estados de conduzir um processo de melhoria da qualidade de vida de nossos povos. O Mercosul é, hoje, um fator de estabilidade democrática no âmbito regional e irradia poderosa força de atração a toda a América do Sul. Neste dia 30 de novembro, 20 anos depois da Declaração de Iguaçu, os presidentes Lula e Kirchner voltam a reunir-se. Será oportunidade para firmar novos e ambiciosos acordos [ ] de complementação, nas mais diversas áreas de interesse comum. Essas duas décadas demonstraram que as diferenças, baseadas em interesses legítimos, encontram solução em um marco de diálogo e disposição mútua de avançar, cada vez mais, na construção de uma integração plena, uma maior articulação produtiva, uma sólida base institucional. Ao comemorar a amizade entre nossos países, celebramos o muito que já se avançou e olhamos para o futuro, sem deixar de reconhecer a necessidade de seguir trabalhando quotidianamente. A base desse esforço é a convicção de que nossa relação, mais do que estratégica, é verdadeiramente imprescindível. Haverá outras relações estratégicas, mas a associação Brasil-Argentina é o eixo central do processo de integração sul-americana, fator decisivo de coesão e cooperação regional. Essa associação é, também, um instrumento-chave para alcançar o desenvolvimento econômico e social de nossas nações e melhorar a vida de nossos povos. O Brasil e a Argentina acumularam, nestes anos, um considerável capital de confiança mútua, que permite uma coordenação ativa de suas ações no plano internacional. A Cúpula das Américas, realizada recentemente na cidade argentina de Mar del Plata, demonstrou os benefícios da coordenação bilateral e no âmbito do Mercosul. A relação entre o Brasil e a Argentina é imprescindível para que, nesta parte do mundo, o sonho de um futuro economicamente próspero e socialmente justo se torne realidade tangível para todos. Se conseguirmos fortalecer ainda mais essa relação, não apenas teremos alcançado um propósito que corresponde a nossos interesses nacionais mas teremos, também, dado uma valiosa contribuição à consolidação do Mercosul e à aceleração do processo de integração sul-americana.
Kirchner vê nova fase; Bolsa e títulos caem FLÁVIA MARREIRO No primeiro dia após o anúncio da saída de Roberto Lavagna do Ministério da Economia, o presidente da Argentina, Néstor Kirchner, disse que o objetivo da segunda etapa de sua gestão é "alcançar um crescimento sustentado, com igualdade". O mercado, no entanto, continuou reagindo mal. Ontem, o governo argentino já pôde ver que não será fácil fazer a nova titular, Felisa Miceli, palatável para o mercado e para Washington: a Bolsa de Buenos Aires fechou pelo segundo dia em baixa (1,5%), os papéis da dívida tiveram queda e o risco-país alcançou 384 pontos, com alta de 2,13%. A nova ministra, que deve assumir amanhã, não deu declarações. Evitou os jornalistas ao sair cedo para se encontrar com Kirchner, na segunda reunião em menos de 24 horas. À noite, compareceu à inauguração de um laboratório francês, onde Kirchner falou que o país "deve ter razões importantes para ser um bom lugar para investir". Miceli foi designada anteontem para substituir Lavagna, no cargo desde abril de 2002. Embora fosse um negociador duro e de declarações azedas com o FMI, ele gozava de simpatia do mercado. Agora, reina a apreensão. Nem as credenciais de Miceli, atual presidente do Banco de La Nación Argentina, uma espécie de pupila de Lavagna, foram capazes de convencer os analistas de mercado de que ela não mudará os rumos da economia nem dará uma guinada à heterodoxia. O temor é que ela se afaste do FMI e lance mão de medidas intervencionistas para tentar conter a inflação, que deve fechar o ano em 12%. O "Wall Street Jornal" publicou que a nomeação da "pouco conhecida" Miceli daria mais poder ao "presidente esquerdista" Néstor Kirchner, afastaria ainda mais a perspectiva de reajuste de tarifas públicas e poderia acelerar "a deterioração" da relação com os EUA. E, claro, levar à maior proximidade com o presidente venezuelano, Hugo Chávez. Internamente, empresários reunidos no encontro anual da União Industrial Argentina e a maior parte dos analistas procuraram reforçar a tese de que não se deve esperar "surpresas" da ministra. Quando assumir amanhã, Miceli vai encontrar um país agitado pela inflação de dois dígitos. O efeito mais imediato é a onda de greves e de manifestações por aumentos salariais. O temor de quem compartilha a análise de que o governo "caminhou à esquerda" é que os sindicatos tenham seus pleitos atendidos. A greve da principal companhia aérea do país, a Aerolíneas Argentinas, entra hoje em seu sétimo dia. Pilotos e técnicos querem até 45% de reajuste salarial. Desde quinta-feira os vôos domésticos estão cancelados, e a estimativa é que, até ontem, 47 mil pessoas tenham sido afetadas pela greve. Até o calor pode ser uma preocupação a mais Miceli. Aumentaram os cortes de energia e de água em muito bairros, gerando minipanelaços, rumores de nova crise energética e reclamações das empresas que detêm os serviços. Na vizinhança da nova ministra, porém, o clima é favorável. Ontem, um cartaz apócrifo com os dizeres "Parabéns, vizinha" foi pregado no bairro de Miceli, Saavedra, o mesmo de Lavagna. Com a Redação
Jornal "Gazeta Mercantil"
Opinião
A Venezuela no Mercosul 30 de Novembro de 2005 - Não faltam motivos para a Venezuela ser um sócio pleno. Mas precisa ser agora?. Em 14 anos de existência, o Mercosul está se propondo o maior desafio de sua história: a incorporação de um novo membro pleno. O anúncio da decisão de elevar o status da Venezuela de membro associado para pleno em que passa a ter as mesmas tarifas externas (TEC) do Mercosul e aceita os tratados do bloco poderá ser um dos ou o principal resultado da reunião de cúpula do bloco na próxima semana. É tema tão complexo que há várias lacunas sobre como implantar essa decisão política. A Venezuela pode somar muito ao Mercosul, porque não é um país qualquer. Com base em 2004, o PIB do quinto maior exportador mundial de petróleo foi de US$ 108 bilhões, o que o tornaria o terceiro maior do bloco e elevaria em 14% o do Mercosul, para US$ 884 bilhões (número de 2004). A adesão ajuda não só no fluxo comercial, mas é ainda mais uma forcinha política para o bloco num mundo em que ter é poder. Poderá ainda reduzir o peso proporcional de Brasil e Argentina no Mercosul. As alianças entre membros sobre diferentes temas podem ficar também bem mais interessantes com um quinto elemento. Com o petróleo venezuelano a cerca de US$ 50 o barril, Caracas tem recursos para investir na região, dinheirinho sempre bem-vindo para quem padece de falta do próprio. Os recursos já têm fluído em forma de investimentos diretos e compras de bônus argentinos, por exemplo. A fatia de 2% do Mercosul nas exportações venezuelanas aponta potencial de mais negócios. O comércio entre a Venezuela e o bloco é concentrado em negócios com Brasil e Argentina. Ambos têm superávit com o país vizinho no caso brasileiro, de US$ 1,6 bilhão de janeiro a outubro de 2005, com exportações de US$ 1,8 bilhão. Nos dois casos as vendas incluem, em boa parte, bens de valor agregado. Motivos para ter a Venezuela como sócio pleno não faltam. O temor de que, com seu discurso anti-EUA, o presidente Hugo Chávez atrapalhe a relação do Brasil com Washington, porque o Mercosul teria de pender para Caracas em caso de um conflito bilateral, é válido. Mas Rafael Villas, professor de ciência política da USP, diz que pode ocorrer de o Mercosul influenciar o tom de Chávez em sua relação com os americanos. Verdade que Chávez pode causar constrangimentos ao Mercosul. Mas é preciso lembrar que seu tempo como presidente não tem garantia de ser eterno ou extremamente longo, como as reservas de petróleo do país. A questão fundamental é se a Venezuela ajudaria o Mercosul a cumprir um dos papéis para o qual foi criado: tornar o bloco mais competitivo mundialmente, em especial para bens de valor agregado. É impossível dizer o que seria do Brasil hoje sem o Mercosul, mas também não dá para dizer que por causa do bloco houve um salto gigante em termos de competitividade. Outra questão é por que fazer isso agora, se o bloco nem consegue ser uma união aduaneira perfeita. A complexa negociação com um novo sócio poderá desviar a atenção de esforços de um aprofundamento da relação entre os sócios atuais. É mais um exemplo do Mercosul crescendo para fora, tentando compensar buracos internos. (Gazeta Mercantil/Caderno A - Pág. 3)(Claudia Mancini - Editora-executiva da Gazeta Mercantil (cmancini@gazetamercantil.com.br))
Caderno: Internacional
Com Venezuela, bloco sai da estagnação Montevidéu, Caracas e São Paulo, 30 de Novembro de 2005 - A integração da Venezuela ao Mercosul poderá ajudar a acabar com os conflitos entre os membros e tirar o bloco regional de sua atual estagnação, disseram analistas do Cone Sul. "A entrada da Venezuela vai tirar o Mercosul de sua imobilidade, não terão outro jeito", disse um analista local. Os quatro sócios fundadores do Mercosul - Brasil, Argentina, Paraguai e Uruguai - decidiram aceitar a Venezuela como membro pleno do bloco. O ato formal do reconhecimento de "início de negociações", o Acordo Marco de Adesão, acontecerá em 9 de dezembro, durante a cúpula presidencial do bloco na cidade de Montevidéu. Os uruguaios foram os principais responsáveis por acelerar o processo de incorporação da Venezuela, durante o semestre em que o Uruguai está na Presidência do Mercosul. No entanto, os outros três países, com diferentes intensidades, apoiaram a ampliação. O Uruguai justifica a incorporação da Venezuela, um dos últimos países a se incorporar como membro associado - junto com Chile, Bolívia, Peru, Equador e Colômbia - por considerar que sua entrada "equilibrará o bloco". Tanto o vice-presidente uruguaio, Rodolfo Nin Novoa, como o chanceler, Reinaldo Gargano, utilizaram esse argumento. "A entrada da Venezuela serve para equilibrar a balança das assimetrias no bloco, porque terão mais países pequenos", disse Novoa. Segundo diversos analistas, por trás desta afirmação está o desejo de "tirar o poder" dos dois grandes, Brasil e Argentina, que sobrepuseram suas políticas nacionais em relação às do bloco. "O Mercosul não está na agenda da Argentina e do Brasil. Mas a Argentina não estaria voltando a falar de salvaguarda e o Brasil não seguiria comercializando sozinho pelo mundo. A entrada da Venezuela os obrigará olhar novamente para o bloco", afirmou outro analista que preferiu manter o anonimato. O subsecretário-geral da América do Sul do Itamaraty, José Eduardo Martins Felício, afirmou a declaração de entrada da Venezuela como membro do bloco já foi confirmada politicamente e poderá ser reforçada durante a reunião. "Entretanto, há ainda um longo caminho de discussões sobre questões comerciais", disse, em comunicado. Compra de bônus A Venezuela comprará mais bônus da dívida pública argentina com a finalidade de aumentar os US$ 986 milhões de títulos adquiridos este ano, afirmou o ministro das Finanças Nelson Merentes. O ministro venezuelano revelou que duas instituições financeiras locais, que não identificou, no mês de outubro compraram no mercado US$ 380 milhões de papéis da dívida argentina. "A operação foi um sucesso porque a República ganhou US$ 40 milhões (...) De modo que continuaremos vendendo e comprando títulos da dívida argentina", disse ontem o Merentes, segundo jornais caribenhos. Ele reiterou que a compra de títulos argentinos corresponde a uma estratégia do governo de Hugo Chávez para constituir um mercado secundário de bônus de mercados latino-americanos. (Gazeta Mercantil/Caderno A - Pág. 9)(EFE, AFP e Redação)
Caderno: Nacional
Infra-estrutura será tema de reunião em Puerto Iguazú Brasília, 30 de Novembro de 2005 - O encontro entre os presidentes do Brasil Luiz Inácio Lula da Silva, e o argentino Nestor Kirchner, que será realizado hoje na Argentina, deve reforçar os laços em áreas de infra-estrutura. Entre os mais de 20 documentos que serão assinados hoje pelos representantes dos dois países, haverão tratados de cooperação nas áreas nuclear (combustível, reatores, gestão de resíduos), de telecomunicações, energia, educação, entre outros. Paralelamente ao encontro dos presidentes, previsto para as 10h30 após a chegada de Lula a Puerto Iguazú, será realizada uma reunião ministerial com a presença dos ministros da Fazenda, Antonio Palocci, a nova titular da pasta na Argentina, Felisa Miceli, além dos representantes das duas partes nas áreas de Agricultura, Trabalho, Minas e Energia, Comunicação, Educação, Cultura e Esportes. Já as decisões da área comercial devem ficar para outro momento. Um dos impasses entre os dois países é o mecanismo de salvaguardas, chamado de Cláusula de Adaptação Competitiva (CAC), proposto pela Argentina. O subsecretário-geral da América do Sul do Itamaraty, José Eduardo Martins Felício, afirmou que o Brasil quer propor a criação de comissões de monitoramento do comércio bilateral com os países do Mercosul, a exemplo das duas já existentes do Brasil com o Uruguai e o Paraguai. No caso das salvaguardas, o objetivo do País é que as decisões comerciais sejam compartilhas entre os dois países interessados e não unilaterais, como propõe a Argentina. Outro principal ponto de divergência entre os vizinhos, com relação às salvaguardas, é o prazo de duração do mecanismo. O governo brasileiro quer a criação de um prazo de cinco anos para a duração do mecanismo e o país vizinho propõe tempo ilimitado. A comercialização de automóveis entre os dois países também não deve ser resolvida no chamado Dia da Amizade Brasil-Argentina. A meta era que a livre comercialização de automóveis entre o Brasil e a Argentina ocorresse a partir de 2006. Entretanto, os argentinos alegam a existência de desequilíbrio comercial, decorrente do fato de que mais da metade dos carros vendidos naquele país são fabricados no Brasil. Assim, é provável que seja prorrogado o prazo de estabelecimento de cotas de vendas bilaterais. "Precisamos fazer uma revisão do regime automotivo", disse o subsecretário. No Dia da Amizade Brasil-Argentina, será celebrado o 20 aniversário do encontro dos então presidentes do Brasil, José Sarney, e da Argentina, Raúl Afonsín, em 1985, quando foi assinada a Declaração de Iguaçu, marco do processo de aproximação entre os dois países. Além dos mais de 20 acordos, os presidentes Lula e Kirchner deverão assinar o Compromisso de Puerto Iguazú, com o objetivo de fortalecer as relações bilaterais em várias áreas. (Gazeta Mercantil/Caderno A - Pág. 5)(Kelly Oliveira)
Jornal "Valor Econômico"
Caderno: Brasil
Assinatura de acordo de salvaguardas é adiado Documento seria assinado
hoje em Puerto Iguazú Estava correta a impressão do governo brasileiro: com a demissão, segunda-feira, do ministro da Economia, Roberto Lavagna, extinguiu-se a decisão do governo argentino de assinar, hoje, um acordo com o Brasil para estabelecimento de barreiras comerciais entre os dois países em caso de súbito aumento de importações por um dos sócios. O acordo, que ganhou o nome de Cláusula de Adaptação Competitiva (CAC) era exigido por Lavagna e seria assinado na comemoração do Dia da Amizade Brasil-Argentina, no encontro, em Puerto Iguazú, no país vizinho, entre os presidentes Luiz Inácio Lula da Silva e Nestor Kirchner. De acordo com a assessoria de imprensa do Ministério do Desenvolvimento, Indústria e Comércio Exterior, está marcada para 5 de dezembro, no Rio, uma nova reunião bilateral entre técnicos dos dois países para rediscutir as salvaguardas e o acordo automotivo, que regula o comércio de automóveis e expira no fim do ano. "Se os dois presidentes não assinarem as salvaguardas amanhã é porque esse assunto tem que amadurecer mais", afirmou o assessor especial de política externa da presidência da República, Marco Aurélio Garcia. "É normal que os dois governos se dêem mais tempo. Esse assunto ficou pendente, mas as possibilidades de acordo são grandes. As diferenças entre os dois países eram mínimas", completou. Segundo apurou o Valor com o governo argentino, com a saída de Lavagna (que ameaçou tornar meramente "cerimonial" a reunião Lula-Kirchner, caso não se aprovasse a CAC), ninguém no governo argentino quis assumir a responsabilidade de concluir com os brasileiros o acordo em negociação. O Itamaraty recebeu com alívio a redução das pressões argentinas, mas o ministro das Relações Exteriores, Celso Amorim, se mostra convencido de que é melhor haver algum mecanismo formal de controle do comércio bilateral que correr o risco de medidas arbitrárias de bloqueio às importações por parte do vizinho. Na segunda-feira, o secretário da Indústria da Argentina, Miguel Peirano, que foi mantido no cargo, após a saída de Lavagna, se reunirá com o secretário-executivo do Ministério do Desenvolvimento, Ivan Ramalho, na Comissão Permanente de Monitoramento de Comércio, que negocia queixas de empresários de ambos os países contra importações do vizinho. Deverão discutir também a continuidade das negociações da CAC e os rumos do acordo automotivo (que deveria garantir, a partir de 2006, o livre comércio de carros e partes, mas deverá ser alterado para manter restrições ao comércio bilateral no setor). Os argentinos dizem esperar que se chegue a uma decisão sobre os dois temas até a reunião de presidentes do Mercosul, na segunda semana de dezembro. Amorim disse ser impossível fazer uma previsão, agora. "A nova ministra da Economia argentina só toma posse na quinta-feira", argumentou. Segundo um participante das discussões pelo lado argentino, é um erro acreditar que a saída de Lavagna elimina a exigência da CAC por parte dos argentinos. Embora negociador duro, Lavagna sabia exatamente os custos de um impasse, ou rompimento das negociações com o Brasil, o que dava racionalidade nas negociações. Com sua saída, aumenta o poder de integrantes do gabinete de Kirchner, e do próprio presidente argentino, que não tem demonstrado muito apreço por suscetibilidades diplomáticas. "Continuaremos a negociar de boa fé, porque o que se quer é uma solução que não entrave o comércio a longo prazo", comentou Amorim. "Escutei que houve um momento em que talvez até havia pessoas do lado argentino que preferiam não ter a CAC porque achavam que teriam liberdade para aplicar qualquer tipo de medida", comentou o ministro. "Não é um bom raciocínio, como também não é bom raciocínio do lado brasileiro achar que podemos retaliar a qualquer momento." Amorim repetiu que o Brasil aceitará um mecanismo de controle de importações desde que não seja unilateral, tenha prazo definido, preveja adaptação da indústria argentina para competir sem o instrumento no futuro, e não permita desvio de comércio para outros fornecedores que ocupariam o espaço deixado pelos exportadores brasileiros. Não interessa ao Brasil recorrer à Organização Mundial de Comércio (OMC) "todo dia", em caso de barreiras comerciais argentinas, disse. Amorim se irrita quando indagado sobre a negociação das medidas de salvaguardas comerciais com a Argentina (denominação, aliás, que não aceita, argumentando que salvaguardas têm características diferentes do que vem sendo negociado). "Dificilmente houve na história um período de relações tão harmônicas do Brasil com a Argentina", assegurou, na Comissão de Relações Exteriores da Câmara dos Deputados. Os conflitos, hoje, são limitados ao comércio, o que é natural em países de forte relacionamento, e acontece em outras regiões, como com os Estados Unidos e Canadá, comentou. Até a tarde de ontem, os governos do Brasil e da Argentina já tinham concluído a negociação de 24 acordos em áreas como educação, ciência e tecnologia, tecnologia nuclear e equipamentos militares. Decidiram, ainda, pôr em prática, sem esperar os outros sócios do Mercosul, o acordo que facilita vistos de residência para nacionais dos dois países. Os técnicos tentavam ainda concluir um tratado para coordenar os respectivos sistemas de fiscalização sanitária e fitossanitária.(Colaborou Raquel Landim, de Puerto Iguazú)
AL já compra mais do Brasil que da UE, diz Amorim De Brasília Pela primeira vez na história, a América Latina passou a comprar mais produtos exportados pelo Brasil que os países da União Européia, mesmo com a ampliação do bloco europeu para 25 países, comemorou o ministro das Relações Exteriores, Celso Amorim, em audiência na comissão de Relações Exteriores da Câmara dos Deputados. Com dados do comércio exterior de outubro, Amorim fez um balanço dos resultados da política externa, e, sempre argumentando não considerar o comércio o único indicador de êxito, comemorou o aumento das vendas para países prioritários na estratégia de atuação externa do governo Luiz Inácio Lula da Silva. "Se excluir o petróleo, 10% de nosso saldo do comércio exterior vêm, hoje, da África." "Há interesses políticos e geoestratégicos do Brasil no Atlântico Sul que não se pode ignorar", comentou o ministro, lembrando que as vendas à Nigéria, maior comprador do Brasil no continente africano, deverão chegar a US$ 900 milhões neste ano. Amorim recebeu extensos elogios do ex-ministro e deputado federal Francisco Dornelles (PP-RJ), pelo esforço de diversificação dos mercados do Brasil. Dornelles, porém, acusou o Itamaraty de impedir que a Câmara de Comércio Exterior (Camex) analise pedidos de barreiras antidumping movidos por empresas brasileiras contra estrangeiras. Amorim negou o bloqueio e prometeu investigar o tema. Para o ministro, apesar do "mal-estar" apontado no Mercosul pelo presidente Lula, as relações do Brasil com os vizinhos estão avançando. Ele citou realizações como a criação do "Fundo de Convergência Estrutural", que destinará US$ 100 milhões anuais aos países do bloco, principalmente Paraguai e Uruguai, e a decisão de eliminar progressivamente a cobrança da tarifa externa comum para bens importados por um dos países-sócios que são reexportados para outro país dentro do Mercosul. A situação atual do bloco é notável porque, ao assumir, Lula encontrou o Mercosul "esgarçado, tanto interna quanto externamente", disse Amorim. O ministro disse que a atuação do Brasil no cenário internacional não pode se restringir aos temas econômicos e comerciais. Lembrando a iniciativa bem sucedida de criação do Grupo de Amigos da Venezuela, que permitiu o país superar a crise política após a tentativa de golpe de Estado contra o presidente Hugo Chávez, o ministro argumentou que o governo Lula acrescentou um novo significado ao tradicional princípio de não-intervenção. "Acrescentamos a idéia da não-indiferença." Essa tese justificaria a participação do Brasil na missão de paz da ONU para reconstrução do Haiti, após a derrubada do presidente Jean Baptiste Aristide, comentou.
OMC amplia benefícios a pobres FolhaNews De São Paulo A Organização Mundial do Comércio (OMC) concordou ontem em estender o prazo de aplicação de uma isenção das regras sobre propriedade intelectual para países pobres até 1º de julho de 2013. A isenção se aplica a marcas registradas, direitos autorais e patentes, entre outros tipos de propriedade intelectual. Não se aplica, no entanto, a patentes de produtos farmacêuticos - de que os países menos desenvolvidos já estão isentos O período de isenção estava previsto para terminar em 1º de janeiro de 2006. A isenção deixará de ser aplicável aos países que conseguirem deixar a classificação da ONU de países menos desenvolvidos. Estão classificados como tal, atualmente, 50 países, dos quais 32 são membros da OMC.
Jornal "O Estado de S.Paulo"
Editorial
Há 20 anos... Há 20 anos, os presidentes José Sarney e Raúl Alfonsín se reuniam na cidade fronteiriça de Puerto Iguazú para assinar um acordo que marcaria o início de uma nova etapa do relacionamento entre Brasil e Argentina e seria o embrião do Mercosul. Fazia parte do projeto de Sarney e Alfonsín a integração econômica dos dois países. Mas, além disso, tinha um evidente sentido político, que hoje praticamente não é lembrado. José Sarney e Raúl Alfonsín foram os primeiros presidentes civis, após longas ditaduras militares no Brasil e na Argentina. Durante esse período, o relacionamento entre os dois regimes autoritários oscilou do confronto - motivado pela construção de Itaipu, pelo Brasil, e pelos avanços argentinos na área nuclear - à estreita colaboração, em questões de segurança interna, isto é, de repressão aos contestadores das ditaduras. Nos dois países, os regimes militares haviam chegado à exaustão, mas a transição para a democracia foi negociada, daí as leis de anistia, no Brasil, e do "ponto final" e da "obediência devida", na Argentina. Nesse contexto, os dois presidentes civis decidiram aproximar seus países, esquecendo rivalidades históricas que levavam os militares brasileiros e argentinos a se considerarem reciprocamente inimigos potenciais. Para remover as causas da atávica desconfiança recíproca entre os dois países, Sarney e Alfonsín pretendiam não só criar as condições para a cooperação nos campos econômico, social e científico, como acelerar a redução do papel de destaque que os militares ainda tinham nas respectivas vidas nacionais. Foram importantes para a distensão as visitas que Alfonsín fez a Itaipu e Sarney às instalações nucleares argentinas. Por determinação dos presidentes, delegações dos Estados-Maiores das Forças Armadas dos dois países e do Estado-Maior Conjunto passaram a se reunir periodicamente, para tratar de assuntos comuns às duas Forças Armadas. Como conseqüência dessa aproximação, Brasil e Argentina assinaram os acordos que puseram fim à corrida nuclear e submeteram os dois programas a uma rigorosa inspeção dupla, da Agência Argentino-Brasileira de Contabilidade de Controle e da Agência Internacional de Energia Atômica. Passados 20 anos, as Forças Armadas dos dois países cooperam em todos os sentidos, não restando traços do passado de rivalidade e antagonismo. E ambas as Forças Armadas assumiram inteiramente as suas missões profissionais, abandonando a intervenção na política. Em novembro de 1985, os presidentes da Argentina e do Brasil lançaram os alicerces de um processo de integração ambicioso, no campo político, e cauteloso, no plano econômico e comercial. A região, afinal, havia experimentado duas frustrações: o retumbante fracasso da Alalc, na década de 1960, e a estagnação da Aladi, que deveria substituir a Alalc, formando uma zona de livre comércio, mas nunca foi mais que uma zona de preferências tarifárias. Assim, Sarney e Alfonsín iniciaram o processo de integração econômica e comercial com um modesto Programa de Integração e Cooperação Econômica, que dois anos depois evoluiu para um Tratado de Integração, Cooperação e Desenvolvimento que, no prazo de dez anos, deveria resultar num espaço econômico comum. Seus sucessores, no entanto, tinham pressa e ambições maiores. Em 1991, os presidentes Carlos Menem e Fernando Collor de Mello criaram o Mercosul, incluindo o Paraguai e o Uruguai ao processo de integração que, no prazo de cinco anos, deveria funcionar não como uma zona de livre comércio, mas como uma união aduaneira, a caminho de ser um mercado comum. Lembra o ex-presidente Raúl Alfonsín, em entrevista ao nosso correspondente Ariel Palácios, que a pressa e a ampliação do bloco causaram problemas. O ex-presidente Sarney descreve com mais pormenores o atropelamento do plano original: "Primeiro tínhamos que ter consolidado a integração Brasil-Argentina. Depois, à medida que iam sendo preparados, os países menores poderiam aderir ao cumprir requisitos básicos, como acontece na União Européia. Com a entrada do Uruguai e do Paraguai, ficou difícil aprovar os acordos para aprofundar a integração, porque esses países têm mais dificuldades." E, o que é mais grave, Brasil e Argentina tornaram-se rivais no Mercosul. Da experiência iniciada há 20 anos, restou intacto o fim da rivalidade militar.
A ministra de Kirchner Apesar de a primeira reação dos mercados ter sido de nervosismo e temor, a saída de Roberto Lavagna do Ministério da Economia da Argentina não produzirá necessariamente nenhuma crise no curto prazo, nem alterará de maneira significativa, para melhor ou para pior, as tensas negociações comerciais com o Brasil. Mas a escolha, pelo presidente Néstor Kirchner, da economista Felisa Miceli, que ocupava a presidência do Banco de la Nación, para substituir Lavagna deixa dúvidas sobre o futuro. Kirchner apenas tolerava Lavagna em sua equipe. Por pressão de seu antecessor, Eduardo Duhalde, ao assumir a presidência, aceitara mantê-lo no Ministério da Economia. Com a vitória que obteve sobre seu antecessor na eleição de outubro, Kirchner viu-se em condições de reorganizar seu ministério, dando-lhe o perfil que sempre desejou. A reorganização implicava a substituição de seu ministro da Economia, cujos gestos de independência incomodavam o presidente. Lavagna tinha um histórico que lhe conferia autoridade moral para agir desse modo. Quando assumiu o cargo em abril de 2002, a Argentina vivia sob o impacto do confisco das contas bancárias decretado pelo ex-ministro Domingo Cavallo, a pobreza atingia mais da metade da população, a maior moratória da história havia sido declarada apenas cinco meses antes e o país, criticado por credores de todo mundo, tinha grandes dificuldades para restabelecer o diálogo com o FMI e com a comunidade financeira. O câmbio disparava e a população temia o retorno da hiperinflação. O legado de Lavagna, embora não invejável, é bem melhor do que o que recebeu. Felisa Miceli foi aluna de Lavagna na universidade e trabalhara numa empresa privada de consultoria constituída pelo ex-ministro. Curiosamente, foi Lavagna quem a apresentou a Kirchner, de quem em seguida ela se tornaria fiel aliada. Com sua posse, gestos de independência do Ministério da Economia devem desaparecer. "Sou um soldado kirchnerista", declarou há algum tempo a nova ministra. É isso que Kirchner quer. Para reforçar seu domínio sobre a Pasta da Economia, a profissionais com maior prestígio nos meios político, empresarial e acadêmico - como Adolfo Prat-Gay, ex-presidente do Banco Central, e Martín Redrado, ex-vice-ministro do Exterior e sucessor de Prat-Gay - Kirchner preferiu alguém menos conhecido, mas fiel, como é o caso de Felisa Miceli. É essa peculiaridade da escolha da nova ministra que gera dúvidas sobre sua gestão. Apesar da melhora do quadro econômico da Argentina, que conseguiu renegociar sua dívida externa e retomou o crescimento, há problemas sérios que exigem ação firme do Ministério da Economia. Como Miceli os enfrentará? O primeiro deles é a inflação. Em sua entrevista de despedida, Lavagna disse que a evolução dos preços está dentro do previsto. Não parece coisa preocupante. Mas a previsão é a de que a inflação em 2005 ficará em torno de 11%, sem garantias de que cairá em 2006. Segundo jornais argentinos, a nova ministra não acredita que uma alta dos juros seja suficiente para conter a inflação. Além disso, juros altos esfriariam a atividade econômica e isso poderia ser, na opinião de Miceli, ainda pior do que a inflação. Se se mantiver fiel soldado de Kirchner, o risco é de que a nova ministra adote medidas não convencionais para conter a inflação, como alguma forma de controle ou negociação de preços, cujos efeitos, como mostram exemplos não muito remotos na Argentina e em outros países da região, podem ser desastrosos para a economia. Há ainda o problema, que tratamos em editoriais nos últimos dias, da dívida com organismos internacionais e com credores privados que vence no ano que vem e para a qual o governo Kirchner não consegue gerar superávits primários suficientes. Por fim, a Argentina precisa ampliar sua capacidade de produção para eliminar gargalos que poderão comprometer o abastecimento doméstico e pressionar os preços. Mas isso requer investimentos, os quais, por sua vez, dependem de confiança do setor privado na política do governo. É essa confiança que Felisa Miceli precisa conquistar.
Caderno: Economia
Kirchner concentra poder e situação argentina deve se agravar SONIA RACY Em dois anos, o presidente argentino Néstor Kirchner jamais convocou uma reunião de gabinete. Seu estilo sempre foi o de despachar individualmente com cada ministro seu. "Agora, com a reviravolta desta semana, podemos dizer que não há mais ministros em seu ministério, somente assistentes. Kirchner será o ministro de cada área", analisou ontem, de Buenos Aires, o empresário Ricardo Esteves, co-presidente do Foro Ibero-américa. Essa concentração de poder, no ver de Esteves, vai prejudicar a interlocução com a sociedade. "O mito argentino acabou", conclui. E, para justificar essa sua conclusão, Esteves volta ao passado, à década de 50, quando a revolução "verde", promovida pela Europa e pelos EUA, quebrou a Argentina. Desde então, acredita Esteves, cinco décadas foram desperdiçadas. "O trem da industrialização passou e hoje nos restam poucas esperanças de conseguirmos um lugar significativo de inserção no mundo competitivo." Acredita o empresário que, durante esse tempo, se cometeram erros graves em nome de todo tipo de ideologia. "A sociedade prefere pôr a culpa nos políticos porque trocá-los é mais fácil do que fazer mudanças estruturais." A Argentina queimou seu capital e seu patrimônio sem enfrentar os problemas estruturais. E, quando os recursos acabaram, o país se endividou. E onde é que estão as grandes obras, as casas populares? Os governos usaram os recursos para financiar o consumo, postergando por 30 anos o problema da pobreza, que aparece nitidamente nos dias de hoje, aponta. "Dolorosamente, esta é a realidade que temos que enfrentar, com seus efeitos na seguridade social, na desintegração social, nos contrastes morais e na dor, tanto para os que não têm recursos como para os que têm e vivem rodeados de fome e miséria." A saída do ministro Roberto Lavagna agrava a situação, mas não freará o crescimento. Ninguém sabe, contudo, como Kirchner vai controlar a inflação. As distorções da política atual vão incentivar a volatilidade financeira e econômica no médio prazo.
Mercado reage mal a Felisa Nos EUA e na Europa,
perspectiva de médio prazo é preocupante Passado o primeiro impacto negativo dos mercados no exterior com a notícia da saída do ministro da Economia argentino, Roberto Lavagna, e sua substituição pela presidente do Banco de la Nación, Felisa Miceli, a avaliação em Wall Street ainda é negativa. O diagnóstico se repete na Europa, entre analistas de bancos estrangeiros. Segundo eles, embora o desempenho da economia argentina não seja afetado no curto prazo, as perspectivas para o médio prazo se tornaram mais preocupantes, principalmente no campo inflacionário. Além disso, as negociações entre o governo e o Fundo Monetário Internacional (FMI) ficarão mais difíceis. "Embora a situação provavelmente se estabilize, pode ficar pior antes de melhorar. Parece ser uma boa oportunidade para reduzir exposição à Argentina", disse o estrategista para a América Latina do Banco Lehman Brothers, Guillermo Mondino. Para ele, a nomeação de Felisa não é encorajadora. "Ela é vista de certa forma como uma economista de segunda categoria e lhe falta sabedoria política para a posição, e expertise técnica." Pablo Morra, analista para a América Latina do Banco Goldman Sachs, a substituição de Lavagna por Felisa "aumenta o risco de o governo adotar uma postura mais intervencionista, heterodoxa e populista em termos de política econômica." A nomeação de Felisa, diz ele, deixa transparecer que o presidente Néstor Kirchner não quer nenhuma figura politicamente autônoma no seu Ministério. O diretor de pesquisa da corretora BCP Securities, Walter Molano, espera que a ministra imponha "medidas artificiais" para reduzir a inflação, como controle de preços. "E também há grande probabilidade de o país romper com o FMI." Para o economista Neil Dougall, do Banco Dresdner Kleinwort Wasserstein, Felisa tem alguma experiência, mas menos presença política que Lavagna. "A saída de Lavagna deve aumentar a propensão para o emprego de intervencionismo e persuasão moral como métodos para combater a inflação, mantendo o viés para um peso fraco com o objetivo de estimular o crescimento econômico." Analista do WestLB, Adauto Lima diz que o populismo do governo aumentará. "Não esperamos que Felisa promova políticas no curto prazo que afetem o crescimento econômico ou ponham em risco as metas fiscais."
Saída de Lavagna deixa EUA e FMI sem interlocutor Há o receio de que a
Argentina vá partir para o isolamento;país tem de pagar US$ 2 bilhões ao Fundo em 2006 As relações da Argentina com o FMI, que pareciam ter entrado numa fase de recomposição após a colisão frontal ocorrida antes e depois da declaração da moratória e do colapso financeiro do país, voltaram à estaca zero. "Lavagna havia indicado ao Fundo que enviaria em breve uma carta que serviria como base para uma negociação de um programa econômico", disse uma fonte oficial. "Isso agora está é incerto, pois ninguém em Washington conhece o que pensa a ministra nomeada para o lugar de Lavagna ou qual seu grau de autonomia para agir, presumindo-se que ela tenha um plano", acrescentou a fonte, referindo-se a Felisa Miceli, a economista de 51 anos, presidente do Banco de La Nación, que agora chefiará a equipe econômica. A incerteza complica o problema imediato entre o FMI e a Argentina, que é encontrar uma maneira que permita ao país honrar a dívida de US$ 9 bilhões que terá de saldar com a instituição nos próximos dois anos, sendo US$ 2 bilhões em 2006. A queda de 5% do mercado na Argentina, desde a segunda-feira, reforçaram o cálculo, nos meios oficiais na capital americana, de que o país já obteve todos os benefícios que poderia auferir da moratória e da recuperação da economia depois da brutal contração de 2002, e que o caminho à frente é de deterioração. A decisão de Lavagna de abandonar o barco de Kirchner ajudou a fortalecer a percepção de que a economia tenderá, agora, apenas a piorar. Estejam ou não corretas essas estimativas, uma coisa com que a sucessora de Lavagna não deve contar é com a boa vontade de Washington. Segundo o presidente do Diálogo Interamericano, Peter Hakim, o presidente George W. Bush e os membros de sua comitiva voltaram de Mar del Plata profundamente desgostosos com a forma como Kirchner conduziu-se como anfitrião da Cúpula das Américas. A frustração americana aumentou com a decisão do líder argentino de visitar a Venezuela imediatamente depois do encontro de líderes do Hemisfério. "Do ponto de vista do governo Bush, a saída de Lavagna de cena é um fato negativo", disse Hakim.
'98% das relações com a Argentina são boas' Tânia Monteiro Enviada especial FOZ DO IGUAÇU "Não acho que as relações entre Brasil e Argentina têm de ficar subordinadas a desencontros", afirmou ontem o assessor especial da presidência Marco Aurélio Garcia, no Fórum de Reflexão Brasil-Argentina, que antecede a reunião bilateral entre os dois países. Para Marco Aurélio, 98% das relações entre os dois países são boas e sem problemas - apenas 2% viram notícia de jornal. Para mostrar áreas de convergência entre os dois países, ele cita as posições de ambos quanto à Área de Livre Comércio das Américas (Alca), à Organização Mundial do Comércio (OMC) e às relações Sul-Sul. Marco Aurélio defendeu o "reforço institucional" da secretaria executiva do Mercosul. "Precisamos reforçar institucionalmente o Mercosul não só para gerir conflitos, mas para construir consensos. Tem de acabar com essa idéia de que a secretaria geral do Mercosul seja apenas uma espécie de Corpo de Bombeiros." Hoje, a partir das 10h30, em Puerto Iguazú, os presidentes do Brasil, Luiz Inácio Lula da Silva, e da Argentina, Néstor Kirchner, se reunirão para um, segundo Garcia, encontro "eminentemente político". Os dois países, lembrou, têm responsabilidades compartilhadas na região, que dependem de maior coordenação entre ambos. Entre elas, destaca maior apoio ao Paraguai e ao Uruguai no Mercosul, acompanhamento da evolução da situação da Bolívia e o futuro da comunidade sul-americana. POLÍTICA BENÉFICA Depois de ouvir ressalvas do economista Paulo Nogueira Batista Júnior à política econômica brasileira, Marco Aurélio defendeu o governo. "A política econômica do governo, mesmo com suas perversões, não cria problemas para a Argentina", salientou, acrescentando considerar a política econômica até "benéfica" ao país vizinho, inclusive pelas altas taxas de juros vigentes no País ou pelo câmbio. O assessor defendeu ainda a integração física e energética na região. O professor Hélio Jaguaribe, presente ao encontro, lembrou que "o Mercosul tem muito futuro e, se ele não tiver, nós também não temos". Os entraves, para ele, são "problemas de trajetória superáveis". Para Paulo Nogueira Batista, "em um processo de integração as brigas são naturais". Sobre a entrada da Venezuela no Mercosul, Marco Aurélio disse que, com aquele país cumprindo os requisitos normativos, não há nenhum problema no seu ingresso no bloco comercial.
Troca de ministros altera pouco negociações bilaterais Ex-secretário de Indústria argentino acredita que a saída de Lavagna e Bielsa vai causar, no máximo, mudança de estilos "As negociações com o Brasil não vão apresentar grandes mudanças por causa da reforma ministerial". A afirmação é de Dante Sica, ex-secretário de Indústria da Argentina e um dos principais analistas de comércio exterior do país. Sica considera que a troca de ministros realizada na segunda-feira na Argentina não alterará a essência das negociações bilaterais. A reforma incluiu dois postos cruciais para as relações com o Brasil. Por um lado, a reforma atinge o Ministério da Economia,do qual foi removido Roberto Lavagna, homem duro nas negociações com o Brasil, que foi substituído por Felisa Miceli, conhecida pela teimosia e devoção fervorosa ao presidente Néstor Kirchner. Por outro lado, o posto de chanceler, que implicará a substituição de Rafael Bielsa por Jorge Taiana. Bielsa, que mantinha um comportamento oscilante em relação ao Brasil, seria seguido nesse estilo por Taiana, que, ao mesmo tempo que se opõe visceralmente à candidatura brasileira ao Conselho de Segurança da Organização das Nações Unidas (ONU), também possui posições firmes de defesa do Mercosul perante as ásperas negociações da Área de Livre Comércio das Américas (Alca), da qual é um intenso crítico. DIVERGÊNCIAS "Pode mudar o estilo, mas os assuntos essenciais, como o acordo automotivo, a Cláusula de Adaptação Competitiva (CAC) e outros temas que precisam ser resolvidos antes do fim do ano não terão grandes modificações", disse Sica. "Ocorre que as diretrizes da política externa quem define é o próprio presidente Néstor Kirchner." Segundo Sica, a variação que pode ocorrer na Chancelaria é que o novo ministro, Jorge Taiana, teria um perfil "um pouco mais político" que o antecessor, o que, na verdade, poderia levar a um "aprofundamento" do Mercosul. Dante Sica sustenta que Rafael Lavagna foi removido do cargo não por divergências com a política econômica, mas sim por questões políticas. "Lavagna tinha um peso específico muito grande dentro do gabinete", explica o analista. Avaliando a integração entre o Brasil e a Argentina a partir do encontro entre os ex-presidentes Raúl Alfonsín e José Sarney, em 1985, quando colocaram as bases daquilo que mais tarde se transformaria no Mercosul, Sica sustenta que "houve um grande avanço". O ex-secretário da Indústria afirma que Alfonsín e Sarney "mudaram o rumo desses dois países, que tinham culturas muito fechadas e se consideravam, mutuamente, hipótese de conflitos bélicos". "Isso ficou no passado. Hoje, são duas culturas que se conhecem cada vez mais", observou o especialista. Segundo Sica, os críticos do bloco do Mercosul "têm a deformação no olhar de só enxergar o lado econômico, que foi mais forte nos primeiros anos e depois se estancou." Além disso, as assimetrias comerciais existentes, com o processo de integração, em vez de diminuir, aumentaram. Dante Sica descarta a possibilidade de setores críticos do Mercosul pensarem seriamente no fim do bloco. "Ninguém dá um tiro no próprio pé; não dá para retroceder à situação de anos atrás", concluiu o ex-secretário.
Lula e Kirchner festejam 20 anos de Mercosul, sem falar em salvaguardas Encontro em Puerto Iguazú
terá a presença dos ex-presidentes Sarney e Alfonsín, que assinaram documento em 1985 Os presidentes do Brasil, Luiz Inácio Lula da Silva, e da Argentina, Néstor Kirchner, se encontram hoje na cidade argentina de Puerto Iguazú para celebrar o 20º aniversário da assinatura da Declaração do Iguaçu e comemorar o Dia da Amizade Brasil-Argentina. Os ex-presidentes do Brasil, José Sarney, e da Argentina, Raúl Alfonsín, que assinaram o documento em 1985, estarão presentes ao evento de comemoração. A declaração foi o marco inicial para a aproximação comercial entre os dois países. O sub-secretário geral da América do Sul, José Eduardo Martins Felício, disse ontem que a idéia é retomar os acordos bilaterais em vários setores. Mais de 20 acordos serão assinados em áreas como energia nuclear, cooperação espacial, telecomunicações, defesa, energia, educação e cultura. Felício informou ainda que Brasil e Argentina devem tornar bilateral o acordo de residência de nacionais firmado no âmbito do Mercosul, mas não reconhecido por Uruguai e Paraguai. O entendimento garante aos brasileiros e argentinos que pedirem residência no país vizinho o direito de trabalhar. Lula e Kirchner assinarão o Compromisso de Puerto Iguazú reafirmando a determinação de aprofundar a cooperação bilateral, e uma declaração conjunta sobre política nuclear, na qual se comprometem com a defesa do desarmamento e da não-proliferação de armas, mas sem prescindir do uso de uma fonte de energia. O subsecretário garantiu que a proposta argentina de criação de um mecanismo que impeça o aumento das importações brasileiras para a Argentina não fará parte das conversas oficiais entre os dois presidentes. Segundo Felício, a Argentina apresentou uma contraproposta na última semana que está sendo analisada pelos negociadores brasileiros, mas há resistências ao pleito argentino. "Estamos buscando um entendimento para que possa ter um mecanismo que não seja automático", disse o subsecretário. A Argentina quer proteger seu mercado e propõe que, em caso de invasão de produtos brasileiros em seu mercado, ela possa adotar automaticamente medidas para barrar a entrada desses bens (as chamadas salvaguardas, batizadas de Cláusula de Adaptação Competitiva, CAC). Segundo Felício, o Brasil até aceita que se busque equilibrar o comércio, mas as medidas teriam de ser negociadas entre os dois lados e adotadas de comum acordo. Ele afirmou não haver prazos para concluir as negociações e acrescentou que dificilmente um acordo será fechado a tempo de ser discutido pelos presidentes dos países do Mercosul na reunião de 9 de dezembro, em Montevidéu. "Não acredito que avance até lá." O embaixador não comentou esse ponto, mas o principal patrocinador da proposta de salvaguardas é Roberto Lavagna, que na segunda-feira deixou o Ministério da Economia. Há dúvidas entre os negociadores brasileiros sobre a composição da equipe de sua sucessora, Felisa Miceli, e sobre a ênfase na defesa dessa proposta. VENEZUELA O encontro enquadra-se numa nova postura do temperamental Kirchner em relação ao Brasil e o resto do Mercosul. Após a recente e turbulenta Cúpula das Américas, na qual a Argentina, junto com a Venezuela, posicionou-se firmemente contra a proposta americana da Área de Livre Comércio das Américas (Alca), Kirchner moderou seu discurso duro com o Brasil - país com o qual havia iniciado um forte confronto comercial desde meados do ano passado - e até chamou o presidente Lula de "mi amigo" (meu amigo). Kirchner também deve discutir com Lula a imediata entrada da Venezuela no Mercosul. O governo argentino tem especial interesse na participação venezuelana, já que poderia garantir o abastecimento de gás e petróleo, produto que começa a escassear na Argentina.
'Sem OMC, só restam acordinhos' O chanceler brasileiro Celso
Amorim não perdeu as esperanças de levar adiante as negociações da Rodada Doha O ministro das Relações Exteriores, Celso Amorim, afirmou ontem, em audiência pública na Comissão de Relações Exteriores da Câmara, que, sem um movimento mais decisivo da União Européia (UE) para a abertura de seu mercado a produtos agrícolas, não haverá avanços na Rodada Doha da Organização Mundial do Comércio (OMC). E sem um entendimento mais amplo na OMC, destacou, não restará ao Brasil alternativa senão a de "continuar com os nossos acordinhos" - referindo-se aos acordos de livre comércio e de preferências tarifárias que o Mercosul vem fechando, nos últimos anos, com economias em desenvolvimento. Sábado, Amorim participará de mais uma reunião do chamado G-4, que congrega os países ou blocos considerados mais relevantes nas discussões da Rodada Doha: EUA, União Européia, Índia e Brasil. É uma nova tentativa de convencer os europeus antes da Conferência Ministerial da OMC, marcada para Hong Kong entre os dias 13 e 18 de dezembro. Apesar de reconhecer que a atual situação da Rodada Doha é "delicada", Amorim ainda não perdeu as esperanças. "Não podemos deixar que a rodada fracasse." Lembrou que em outubro os EUA fizeram um movimento considerado "relevante mas insuficiente" para o avanço das negociações. Washington propôs um corte de 60% nos subsídios que mais distorcem o comércio, mas indicou que alguns dos subsídios agrícolas seriam transferidos para outra qualificação, a dos subsídios não distorcivos. Segundo Amorim, essa proposta limitaria a capacidade dos Estados Unidos de dar subsídios a seus agropecuaristas e poderia ser complementada pelo governo americano, caso a UE fizesse uma proposta mais favorável sobre acesso a mercados. Mas, até agora, a UE não fez este movimento. Da última proposta dos europeus, o Itamaraty concluiu que, de um total de 2.200 itens agrícolas, apenas cerca de 340 teriam cortes de tarifa. Amorim explicou que, neste momento das negociações, o Brasil e seus sócios do G-20 (grupo que reúne nações em desenvolvimento) unem forças com os americanos. Ressaltou, entretanto, que isso não significa "alinhamento automático com os Estados Unidos", respondendo às críticas contra a estratégia de negociação do Brasil e do G-20. Recentemente, o presidente da Associação Brasileira da Indústria de Exportadores de Carne Suína, Pedro de Camargo Neto, disse que os negociadores brasileiros estavam mais focados na questão do acesso ao mercado europeu, deixando de lado o combate aos subsídios pelos Estados Unidos. BR MPF de Cuiabá vai investigar a Friboi Secretaria de Defesa Econômica já está apurando manipulação de preços da carne DENÚNCIA Agnaldo Brito O Ministério Público Federal (MPF), de Cuiabá, acatou ontem a denúncia e também investigará a manipulação de preços na cadeia da carne no Brasil, revelou ontem o procurador federal, Mario Lucio de Avelar. Se aliará com a Secretaria de Defesa Econômica (SDE) do Ministério da Justiça, que investiga o assunto desde março. Fitas gravadas pelo empresário José Altamiro Bihl, em junho de 2004, mostram declarações de José Batista Junior, dono do Friboi - maior frigorífico da América Latina - falando sobre acordos para definição de preços para compra de boi em pelo menos cinco Estados. Na gravação, Junior fala sobre prática de dumping, quando diz utilizar a estrutura para abate de 16 mil animais por dia para "derrubar o preço do mercado interno", quando há tendência de elevação no setor. O Friboi afirma que tem deixado o mercado interno, mas, na fita, declara que utiliza o poder industrial para arbitrar preço no mercado. Para o MPF, os indícios apontam para crime contra a ordem econômica. Segundo o procurador federal, Mario Lucio de Avelar, o Ministério Público solicitará apoio da Polícia Federal no levantamento de provas nos próximos dias. O MPF já entrou em contato com técnicos da SDE para conseguir informações sobre o suposto crime. "Vamos trocar informações a partir de agora. Há uma investigação na Secretária sobre o assunto e vamos buscar uma cooperação." O parecer final da SDE poderá indicar prática de crime, o que levaria o Ministério Público Federal a apresentar denúncia contra os responsáveis. As gravações foram feitas por representantes da Família Bihl - que trava uma disputa com o Friboi pela recuperação da posse do Frigorífico Araputanga (Frigoara). O procurador federal criticou a decisão da família Bihl de ter tornado público o conteúdo das declarações do proprietário do Friboi. "Isso não ajuda muito nas investigações", lamentou. O MPF também aguarda a conclusão de inquérito da Polícia Federal sobre suporta falsificação do selo do Sistema de Inspeção Federal (SIF), que determina a origem da carne embalada. No início de agosto deste ano, foram apreendidos cerca de mil caixas de carne bovina. O documento da carga indicava o SIF 2979 (de Araputanga), mas os produtos tinham SIF com número 385, de Andradina (SP). A Comissão de Agricultura da Câmara dos Deputados pretende ouvir hoje, em Brasília, pelo menos 11 pessoas sobre a denúncia de formação de cartel e prática de dumping no mercado. Além do convite ao presidente do Friboi, José Batista Junior, a Comissão também acertou a presença do pivô da denúncia, o empresário José Altamiro Bihl. Segundo Ronaldo Caiado (PFL-GO), presidente da Comissão de Agricultura, o principal objetivo do encontro será recolher documentos sobre manipulação de preços na cadeia da carne. Caiado disse que irá acelerar a partir de hoje a coleta de assinaturas para a instalação da CPI da Carne. São necessárias 171 assinaturas.
Jornal "O Globo"
Caderno: Economia
Nova ministra argentina deve estrear em cúpula Janaína Figueiredo PORTO IGUAÇU, Argentina. A nova ministra da Economia da Argentina, Felisa Miceli, deve estrear hoje no cargo, durante o encontro entre os presidentes Luiz Inácio Lula da Silva e Néstor Kirchner, na cidade argentina de Porto Iguaçu, onde serão comemorados os 20 anos do encontro entre os ex-presidentes José Sarney e Raúl Alfonsín, pontapé inicial do Mercosul. Segundo fontes do governo argentino, Miceli deve integrar a comitiva argentina que chegará hoje à região da Tríplice Fronteira para participar do evento. Um dos compromissos da agenda da nova ministra será uma reunião com o ministro da Fazenda, Antonio Palocci, num encontro paralelo ao dos presidentes. De acordo com o assessor para Assuntos Internacionais da Presidência da República, Marco Aurélio Garcia, Lula e Kirchner devem conversar, entre outros assuntos, sobre as difíceis negociações entre a Argentina e o Fundo Monetário Internacional (FMI). Garcia elogiou o acordo entre Argentina e Venezuela que prevê a compra de bônus argentinos pelo governo de Hugo Chávez. Somente este ano, a Venezuela desembolsará cerca de US$ 1 bilhão para ajudar a Argentina a honrar dívidas. Acho muito importante que os países se ajudem, por exemplo comprando títulos disse Garcia, após um encontro de intelectuais em Foz do Iguaçu. Agências de notícias argentinas especularam sobre a possibilidade de o Brasil oferecer um socorro econômico à Argentina, nos moldes do acordo assinado com a Venezuela. O assessor de Lula negou ter feito qualquer menção a esse tema. Miceli foi anunciada anteontem no cargo. Kirchner aproveitou uma reforma de gabinete para demitir Roberto Lavagna, que estava no posto desde abril de 2002. No primeiro dia de ausência de Lavagna, o mercado continuou refletindo a preocupação dos investidores. A Bolsa de Valores caiu 1,5% e os bônus argentinos, mais de 3%. A ministra reuniu-se com Kirchner na Casa Rosada para analisar a economia. Estimativas do Banco Central da Argentina indicam que o país deverá fechar o ano com inflação de 11%, acima das projeções iniciais do governo.
Sinal de impasse Geralda Doca e Patrícia Duarte BRASÍLIA. O presidente da Argentina, Néstor Kirchner, sairá de mãos vazias do encontro hoje que terá com seu colega brasileiro, Luiz Inácio Lula da Silva, em Porto Iguaçú. O Brasil não está disposto a anunciar, na reunião, que concorda com as salvaguardas pedidas insistentemente pelos argentinos. As negociações não avançaram e dificilmente serão concluídas antes da cúpula de presidentes do Mercosul, que acontecerá na próxima semana em Montevidéu, no Uruguai. As negociações continuam até o último momento. Estamos tentando encontrar uma solução que não entrave o comércio disse o ministro das Relações Exteriores, Celso Amorim, após uma audiência pública na Câmara. O subsecretário-geral da América do Sul do Itamaraty, José Eduardo Martins Felício, afirmou que não haverá acordo na área comercial durante a conversa de Lula e Kirchner. Segundo o diplomata, os tratados a serem assinados são, basicamente, das áreas nuclear, sanitária, de energia e de educação. Felício destacou que, na semana passada, houve uma rodada de negociações entre os dois países, sem sucesso. A Argentina quer autorização para adotar salvaguardas temporárias em caso de aumento expressivo de importações, mas o chanceler do Brasil deixou claro que o país não aceitará qualquer tipo de mecanismo que não tenha prazo para acabar, que possa ser aplicado de forma unilateral e arbitrária, e cause desvio de comércio em benefício de outros países.
Destinos da América Miriam Leitão A Argentina foi um pouco mais para a esquerda. Para a velha esquerda: a que acha que controle de gastos prejudica crescimento, que inflação alta não tem problema e que tem ardorosos defensores no governo Lula. A queda do ministro que salvou a Argentina do desastre teve um motivo insólito: Roberto Lavagna foi acusado pelo presidente Néstor Kirchner de não ter participado da campanha. Kirchner pôs uma chavista na Defesa e um ex-montonero na chancelaria. Três dos quatro novos ministros eram da Frepaso. A Frepaso foi uma união de partidos de esquerda organizada no fim dos anos 90. A nova ministra da Economia, Felisa Miceli, foi da Frepaso. Ela, a "soldado kirchnerista" terá que enfrentar algumas batalhas: combater a inflação que já está em 12% ao ano e evitar o descontrole dos gastos de um presidente que disse, na semana passada, uma frase que faria muito sucesso com alguns integrantes do governo brasileiro: "Para mim, gasto é investimento." É até melhor do que a máxima dilmista de que "gasto corrente é vida". O que houve na Argentina foi apenas um movimento num xadrez que, nos próximos 12 meses, verá muitos movimentos nas pedras. América Latina e Caribe terão 12 eleições presidenciais e 13 eleições legislativas até dezembro do ano que vem. Começa domingo com Honduras; em dezembro também haverá Chile, Bolívia e Haiti; em fevereiro, Costa Rica; em abril, Peru; em maio, Colômbia; em julho, México; em outubro, Brasil e Equador; em novembro, Nicarágua e, em dezembro, Venezuela. No meio dessas, várias eleições legislativas. A América Latina fará uma grande guinada à esquerda, ou apenas uma mudança suave? A segunda resposta é a mais provável. No Chile, a candidata socialista, Michelle Bachelet, continua na frente. Ela é considerada apenas uma continuidade do presidente Ricardo Lagos, que a apóia. Michelle caiu um pouco nas pesquisas, deve ir para segundo turno, mas continua bem na frente do candidato de direita Joaquín Lavín, que foi derrotado por Lagos na última eleição. No Chile, questões como estabilidade monetária e fiscal não são pontos de discórdia. Michelle foi militante de esquerda, viveu no exílio, teve seu pai, militar, assassinado por Pinochet. No governo Lagos, foi ministra da Defesa e de lá saiu para ser candidata, sem nunca ter concorrido em outra eleição. Na Bolívia, a eleição foi adiada, mas acontece ainda em dezembro. O candidato que está na frente é o líder cocaleiro Evo Morales, que tem 33% das intenções de votos. O cientista político Marcelo Coutinho, do Iuperj, acha que a vantagem pode ser bem maior porque a pesquisa não vai nos grotões, onde Morales tem mais simpatia. O segundo colocado, Jorge Quiroga, está com 27%. Se for eleito, Morales será o primeiro político de origem indígena a chegar ao poder no país. Ele tem moderado muito o discurso para se tornar um candidato mais viável e tem falado, sempre, na grande influência que o presidente Lula tem sobre ele. Lá o segundo turno é no Congresso; Morales precisa mesmo ter um discurso moderado. Há dois fantasmas do passado de volta nestas eleições: Alan García, no Peru, e Daniel Ortega, na Nicarágua. García pode ser derrotado por uma mulher, a segunda com chance nestas eleições: Lourdes Flores Nano. As pesquisas têm dado resultados bem diferentes. A mais ampla dá um empate técnico entre os dois. Lourdes Flores é da direita cristã. Na Colômbia, Álvaro Uribe deve ser reeleito e na Venezuela ninguém duvida das chances de reeleição de Hugo Chávez. Na análise do Observatório Político Sul-Americano, do Iuperj, dificilmente haverá um candidato capaz de vencer Uribe, que tem conseguido reduzir a violência no país. Na Venezuela, a oposição está muito enfraquecida e Hugo Chávez virou uma liderança incontrastável. No México, o que parecia uma eleição certa do candidato de esquerda Andrés Manuel López Obrador está ficando um pouco mais embolada. Algumas pesquisas estão mostrando que o candidato do PAN, de Fox, Felipe Calderón, está avançando, passando o candidato do PRI, Roberto Madrazo. O problema de Madrazo é a rejeição alta; o de Calderón, é ser pouco conhecido no país. De todas as eleições, as que realmente importam são as do Brasil e do México, diz a revista "The Economist". E as duas estão bem emboladas, a do Brasil, principalmente, em que nem se sabe ainda os nomes dos candidatos. Mas o que significam estas eleições? A América Latina vai mais para a esquerda? Pode ser que sim, pode ser que não, mas isso não importa. Hoje essas divisões nem fazem muito sentido. O que preocupa é mesmo o populismo fiscalmente irresponsável que às vezes se apresenta como sendo de esquerda. Hugo Chávez, por exemplo, só engana os desavisados com seu discurso antiquado de antiamericanismo. No caso de Evo Morales, o temor é ele fazer da Bolívia um narcoestado. No Peru, Alan García foi o fracasso do populismo. Qualquer que seja o resultado das urnas, o importante é que elas existem e se espalham por toda a América Latina, que foi campo de prova de todo o tipo de autoritarismo dos anos 60 aos anos 80. Felizmente, aquele pesadelo passou e a maratona eleitoral dos próximos 12 meses vai redesenhar o mapa político da região através de sua excelência, o voto.
Jornais dos Países Membros do Mercosul
Argentina: "El Clarín"
Opinión
El Mercosur nació para provecho de nuestros pueblos y de la región Hace veinte años, el
proceso de integración entre la Argentina y Brasil surgió como un fuerte gesto de
confianza política, con réditos económicos y sociales. Se impone hoy fortalecerlo, en
medio de una globalización nada solidaria. Se cumplen veinte años de la firma del Acta de Iguazú. Recuerdo cuando nos encontramos con el presidente Sarney en Puerto Iguazú y le pedí que me invitara a conocer Itaipú, la represa que con las discusiones sobre la cota había originado un serio enfrentamiento. Sarney de inmediato aceptó y yo sentí que en ese momento algo se había roto y algo nuevo nacía: la confianza, que se expresó y fortificó luego cuando fuimos con Sarney a Bariloche y él pudo comprobar que nuestros avances nucleares eran pacíficos. El momento era difícil para ambos países. Procurábamos consolidar la democracia y la vigencia de los derechos humanos y recuperar nuestras economías en un contexto internacional particularmente negativo. Debíamos sufrir la inestabilidad que generaba a toda la región el final del conflicto Este-Oeste, que tenía a América Central como uno de sus focos de mayor tensión; los complejos problemas derivados de la deuda externa; las altísimas tasas de interés; el incremento de las políticas proteccionistas en el comercio internacional; el deterioro de los términos de intercambio y el drenaje de divisas que sufrían todos los países en desarrollo. No por nada algunos quisieron denominar a aquel período como la década perdida para toda América latina. En ese marco se definió la integración como un proceso de naturaleza política, que debía conducir a la creación de un espacio común, regional, imprescindible en el mundo de la revolución científica y tecnológica, para unir y fortalecer las capacidades productivas y culturales. Esto es, para acceder a una economía legitimada por la aptitud de crear riqueza y trabajo. El compromiso con la integración regional de manera amplia era consecuencia de nuestra reflexión sobre las experiencias del pasado y las necesidades del futuro. Ese análisis llevaba a una conclusión primordial: resultaba cada día más difícil imaginar que la Argentina y Brasil se apartasen de una senda común. Es evidente que, hoy como ayer, estamos llamados a transitarla conjuntamente en beneficio de nuestros pueblos y de la región en su conjunto. La Declaración de Iguazú expresó la firme voluntad política de acelerar el proceso de integración y se decidió crear una Comisión Mixta de alto nivel con la finalidad de impulsar la integración en diversos campos. Entre noviembre de 1986 y abril de 1987 se articularon varios grupos de negociación que permitieron alcanzar acuerdos (protocolos) en las área más sensibles y complejas. De esta manera se desencadenó un proceso que en un período de dos años y seis meses cambió de manera profunda la lógica y la dinámica de la relación bilateral y tuvo un efecto benéfico sobre toda América del Sur. Cuando se inició el proceso de integración el 30 de noviembre de 1985, estaba claro el sentido político del proyecto. Imaginábamos un espacio amplio donde nuestras naciones encontraran el equilibrio solidario para hacer frente a los nuevos desafíos de una globalización insolidaria. Se buscaba crear un espacio de paz y de cooperación en América del Sur, incrementar nuestro poder de negociación internacional, aumentar nuestra autonomía de decisión y promover y consolidar la democracia y los derechos humanos en toda la región. Era, sin duda, una concepción política con réditos económicos y sociales. Una visión más limitada habría conspirado contra su éxito final, ya que lo habría hecho mucho más vulnerable y expuesto a los bruscos cambios en la coyuntura económica mundial. Este paso decisivo de la década de los 80 produjo un cambio cualitativo en la naturaleza de las relaciones entre Argentina y Brasil, sepultando hipótesis de conflicto y rivalidades estériles, afianzó la posibilidad de un crecimiento conjunto y abrió el camino para el desarrollo conceptual de un nuevo proceso de integración para toda América del Sur. Si no lo fortalecemos, el proceso de globalización insolidario conducido hegemónicamente por el gobierno republicano de Estados Unidos hará que en algunos años tanto la Argentina como Brasil y junto con ellos el resto de los países latinoamericanos pierdan su soberanía efectiva para convertirse en simples provincias del imperio. En el mundo de la globalización no hay lugar para países aislados, ni para proyectos autárquicos. Por eso, más Mercosur es la única solución racional. Y más Mercosur significa recuperar el rumbo inicial: Crecer juntos. Producir juntos. Encarar juntos la globalización. Responder juntos a los desafíos científico-tecnológicos. Buscar juntos la mayor eficiencia y el incremento de la competitividad. Poner juntos los necesarios y racionales límites a la intromisión de los capitales golondrinas, al narcotráfico, al lavado del dinero, a la dictadura de los oligopolios. Enfrentar juntos la distorsión de los mercados, los subsidios a la agricultura, la desnaturalización de la OMC y el peligro que supone el ALCA. Construir juntos un espacio propio en el mundo de los grandes espacios regionales. Un espacio de estas características no será ni puede ser el fruto del mercado. Surge de la decisión política, con objetivos políticos y se lo construirá desde la política. Quienes entendemos las luchas más genuinas de nuestras sociedades identificadas con la búsqueda de la libertad asociada con la igualdad; de la república vinculada con la democracia; del desarrollo en relación con la equidad social y la solidaridad, habremos de concebir también a los procesos de integración y cooperación entre naciones y economías no como una forma de potenciar el enfrentamiento entre esas dos lógicas sino, precisamente, como modo de colocarlas en una misma dirección de progreso social. Una gran mayoría de países observa con impotencia cómo se imponen nuevas formas de dependencia, que generan indefectiblemente un nuevo orden desde el que no se avizoran sino nuevas y cada vez más insoportables exigencias para los miembros más débiles del sistema internacional: la virtualidad de la independencia política de los menos poderosos, un orden económico cada vez más insolidario y una irresistible homogeneización del mundo que torna estéril al ser nacional. Sin embargo, las señales dramáticas de la pobreza extrema se convierten en alarmas que suenan con diferentes formas en el corazón de los países desarrollados. La inercia de esta situación global nos sitúa en el papel de partícipes involuntarios de un juego cuyas reglas no nos toca definir: la tensión mundial se vuelve sobre los poderosos agudizando los peligros para su paz interna y para su propia subsistencia. La ruptura de esta dinámica es pues una tarea de todos, que nos exige buscar los caminos que nos lleven de nuevo a una lógica de la sensatez.
Caderno: El País
Lula y Kirchner podrían hablar de estrategias para la deuda externa Así lo admitió el asesor
de Lula, Marco Aurelio García. Recordó que ya había sido tema de otras reuniones,
aunque relativizó que se tomara una decisión porque implica un análisis más técnico. El encuentro de los presidentes Néstor Kirchner y Lula da Silva, hoy por la mañana en Puerto Iguazú, reproduce una histórica cita de hace 20 años que marcó en su momento el deshielo entre dos países que vivían de espaldas. La reunión podría incorporar en la agenda un asunto que preocupa a la Argentina: la ayuda financiera de Brasil mediante la compra de títulos de la deuda pública al estilo de los que ya concretó Venezuela. La discusión sobre ese tema representaría el debut en las negociaciones bilaterales con Brasil de la ministra de Economía Felisa Miceli, quien hoy llegará a esta ciudad misionera acompañando al presidente Kirchner. Si el plan argentino es reintroducir el debate sobre la unificación de estrategias frente al Fondo Monetario Internacional, esta vez no encontrará campo yermo del lado brasileño. Ayer, en una conversación con Clarín, el asesor internacional de Lula, Marco Aurelio García, admitió que, en lo personal, él es "muy favorable" a esa idea. Pero enseguida aclaró que desconocía que el asunto formara parte del temario a tratar entre los presidentes: "Claro que ellos tienen la potestad para dialogar y proponer lo que más deseen". García recordó que la posibilidad de esa "ayuda", consistente en comprar títulos de la deuda argentina, surgió en otras reuniones. Se refería a la cita que tuvo como protagonistas a Lula, Kirchner y el venezolano Hugo Chávez en Montevideo, cuando Tabaré Vázquez asumió la Presidencia uruguaya. En aquel momento se discutió esa estrategia y Venezuela la puso en práctica. ¿Cómo lo ve el presidente Lula?, consultó Clarín. La considera una buena idea, en la medida que representa un apoyo concreto de unos países a otros. Pero claro que esto debe ser consultado con el equipo económico, por las cuestiones técnicas que representa. Pero si nosotros compramos títulos del Tesoro norteamericano, ¿por qué no podríamos adquirir bonos de la deuda argentina? De cualquier manera, no es algo que yo pueda responder. Un tema que deberá esperar a mejores tiempos para que se ultimen los detalles y se ponga en práctica, es la cláusula de adaptación competitiva. Una vez en vigencia, este instrumento permitirá resolver los problemas de desequilibrios productivos entre los dos países. Divergencias de último momento obligaron a postergar una definición sobre ese asunto. Diplomáticos argentinos dijeron a Clarín que entre los temas que trascendieron de la reunión está el repaso del escenario político internacional, de la situación sudamericana y del Mercosur. Los brasileños sostienen que sería bueno reforzar la parte institucional del bloque. Kirchner y Lula deberán repasar también el ingreso de Venezuela al Mercosur como miembro pleno. Ambos gobiernos se han expresado como "muy interesados" en que Caracas pase a ser la quinta capital del Mercosur. Ayer, un foro de reflexión, armado como actividad complementaria a la cita de Lula y Kirchner, tuvo entre sus asistentes al ex presidente Raúl Alfonsín. Hoy estará el también ex presidente brasileño José Sarney. Fueron ellos quienes firmaron, hace exactamente dos décadas atrás, los protocolos de integración bilateral.
Una crítica al Gobierno quebró la modorra en un seminario El evento, organizado por la delegación de la Unión Europea en Buenos Aires, pintaba como uno de ese seminarios semiacadémicos de integración. El panel de la tarde, coordinado por el director del Instituto de Comercio Internacional, Félix Peña, se ocuparía de los desafíos de la integración en los países miembros de bloques como la UE o el Mercosur. Eso hasta que al vicepresidente de la Asociación Pro Democracia de Rumania, Costel Popa, se le ocurrió decir muy suelto de cuerpo que había escuchado en un taller previo a un legislador nacional asegurar que el Gobierno argentino manipulaba a los medios con la distribución de publicidad oficial. "Es igual que en Rumania", concluyó el visitante. El subsecretario de Integración Económica Americana y del Mercosur, Eduardo Sigal, que ya había expuesto, pidió la palabra. Tras darle al rumano la posibilidad de que hubiera existido un error en la traducción de lo que decía o de lo que escuchó, le lanzó: "Lo que usted dice es de una liviandad e irresponsabilidad absolutas. Esa información es totalmente errónea, porque en este país hay una absoluta libertad de prensa." Dicen que Popa, que había usado la cita para sostener las críticas a su país, ya tenía un subido tono morado. Y que los trescientos asistentes al seminario ya se habían despabilado de la modorra vespertina. En el panel estaban también Viktor Klima, presidente de Volkswagen, y Jaroslaw Pietras, ministro de Asuntos Europeos de Polonia. Sigal sostuvo que hacer una afirmación de ese tipo era una "clara intromisión en los asuntos internos del país" y aprovechó para recordar que en Argentina hubo dictaduras y que muchos de los presentes las habían padecido como para tolerar que se denostara al Gobierno con un comentario así. En el cierre, el cruce se convirtió en la comidilla de la tarde.
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