A SRA. YEDA CRUSIUS (PSDB-RS.) - Sr. Presidente, Deputado Fernando Ferro, todos sabem que a população que pode trocou - e cada vez mais pessoas vêm fazendo isso - outros canais de rádio e televisão pela TV Câmara e pela TV Senado. Um dos motivos por que isso tem ocorrido é o fato de que os acontecimentos, que vão se sobrepondo uns aos outros na forma de denúncias graves, alertam para que participem, de alguma maneira, do conhecimento, da informação e da busca de solução para esta profundíssima - mais profunda do que percebem alguns - crise que vivemos. Antes de tratar da crise, no entanto, desejo registrar importante momento em que pudemos falar sobre o tema. Refiro-me à reunião mensal do Movimento Parlamentarista Brasileiro do Rio Grande do Sul, que aconteceu dia 11 último, na Assembléia Legislativa do Estado. Tivemos que sair horas depois do horário normal, pois estávamos falando sobre política e o papel do parlamentarismo num momento como este. Gostaria também de registrar a data de hoje, muito especial. Há 30 anos tem vida o programa Agora, da Rádio Guaíba, do Rio Grande do Sul, no qual comecei, em época de hiperinflação, minha vida de comunicação a respeito dos problemas do País, ainda como professora e economista. Já o coordenaram os jornalistas Flávio Alcaraz Gomes e Adroaldo Streck. A Amir Domingues, da Rádio Guaíba, e a Renato Bastos Ribeiro, que dirige a empresa, dou os parabéns pelo dia de hoje, 14 de julho de 2005, data em que celebramos os 30 anos do programa Agora, da Rádio Guaíba. Não é possível deixar de falar na crise. Em todos os lugares por onde andamos - na calçada, no aeroporto -, e ainda através do e-mail ou do telefone, as perguntas que ouvimos são sempre as mesmas: "Que crise é esta? Qual é o seu tamanho? Como enfrentá-la?" A crise é política e moral. É muito profunda. E a maneira como tem sido enfrentada, muito perigosa. Antecedeu-nos na tribuna o Deputado Paulo Delgado. Sim, Deputado, crise é oportunidade; mas o Governo do Presidente Lula não está tomando esta violenta crise como oportunidade de reestruturação das fontes que têm gerado o caudal de corrupção e deixado a população indignada, estupefata, perguntando aonde isso pode nos levar e a que ponto as denúncias podem ir. Se a crise é profunda, a maneira de enfrentá-la por parte do Governo Lula preocupa-nos demais. Na verdade, venho a esta tribuna fazer um alerta, que também tem sido feito por outras pessoas, as quais passo a citar. Primeiramente destaco V.Exa., Deputado Fernando Ferro, Presidente desta sessão. Na sessão da Câmara de ontem, brindou-nos não apenas com uma belíssima poesia, embora dolorida e sofrida, como o são a vida e a luta política de um país que precisa crescer em todos os sentidos, e não apenas economicamente. Brindou-nos com um alerta sobre o sonho, assassinado. E o Brasil tem, desde 1988, crescido de maneira espetacular e que nos orgulha no campo do desenvolvimento da democracia, difícil de ser conquistada e entusiasmadamente defendida a partir da criação de novas instituições contidas na atual Constituição, que sedimentou o Estado Democrático de Direito, com suas novas regras. A partir dela foi possível a primeira eleição presidencial direta, aquela em que minha geração pôde pela primeira vez votar para Presidente da República, com um quadro partidário amplo e plural. Para, logo em seguida, assistirmos à derrocada do primeiro Presidente eleito pela minha geração. Portanto, congratulo-me com a corajosa exposição com que o nobre Deputado traduz em poesia o seu sofrimento. Não coloco V.Exa. entre os que não têm usado a crise como oportunidade para resolver as razões pelas quais ela foi gerada. Pelo contrário. O meu alerta é sobre o maior perigo que hoje vivemos: o de tentar plantar-se a descrença na própria democracia. É isso que se faz quando se afirma, como má técnica de defesa, que sempre foi assim, ou que todos os partidos são iguais. Ou quando o partido do Governo Lula compra Deputados para formar sua base de governo. Ou quando se usa uma instituição, qualquer que seja, a serviço do governante de plantão. O grande perigo decorrente de tais atitudes é a perda da confiança na conquista da democracia. Porque, continuo afirmando, essa crença sempre guiou a minha vida quando estudei, trabalhei, resolvi ter filhos e os criei: o sentimento de que vale a pena estudar, trabalhar, lutar. Porque a imensa maioria do povo brasileiro é feita de pessoas honestas e trabalhadoras, e para essa imensa maioria da população vale a pena estudar, trabalhar, lutar. Essas pessoas não merecem que a cúpula da organização social - que é a política, aquela que organiza a consulta sobre as prioridades da população, quando se faz uma eleição, e escolhe quem vai dirigi-las - as traia. Não há dúvida de que, se fosse possível matar o sonho, Deputado Fernando Ferro, já saberíamos quem seria o pior dos assassinos que hoje vive, conforme chora a sua poesia. Na verdade, não se mata o sonho. Descobre-se que se sonharam coisas impossíveis de serem conquistadas, por se ter entregue o sonho, ter depositado em outras pessoas sua realização, e não em nós mesmos. Nós identificaremos, e os nossos trabalhos na CPI pretendem levar a isso, quem, no concreto perigo que estamos vivendo hoje, está disposto a matar o sonho de quem viveu - no caso do seu partido, 25 anos, e, no caso do meu, 16 anos - esse período dizendo que vale a pena lutar organizado em partido, porque um vai carregar um conjunto de demandas à sua forma, o outro vai carregá-lo de outra forma. Vamos puxar esse fio para identificar, responsabilizar e punir não só todos os assassinos do sonho, mas todos os pretensos assassinos da realidade que criamos a partir da democracia. Concedo, com imenso prazer, um aparte ao nobre Deputado Mauro Benevides, com quem tanto aprendo. O Sr. Mauro Benevides - Deputada Yeda Crusius, cumprimento V.Exa. pela seqüência do seu raciocínio, nessa linha marcadamente de equilíbrio e de acuidade para a apreciação dos fatos políticos emergentes, os quais naturalmente geram intranqüilidade em mim, em V.Exa., enfim, na grande massa da opinião pública brasileira. Há poucos instantes concedi entrevista a uma estação de televisão, e o entrevistador exercitava uma especulação apocalíptica em relação ao quadro brasileiro. Eu teimava por dizer-lhe que nós haveríamos de vencer a crise, porque o sentimento e a formação democráticos do povo brasileiro eram bem maiores e nos conduziriam, primeiramente, a apurar os fatos e punir os culpados e, depois, a reencaminhar o País à trilha da normalidade, do desenvolvimento e do bem-estar social. V.Exa., conduzindo, como vem fazendo até hoje, o seu raciocínio nesse discurso, não há dúvida de que faz análise percuciente e abalizada e que atende a essa expectativa do povo brasileiro. Queremos que se apurem as ilicitudes e os desvios praticados e, sobretudo, que se resguarde a normalidade institucional, porque isso nos preocupa. Assistimos durante tanto tempo à implantação do regime de arbítrio entre nós e lutamos para o reencontro do País com o Estado Democrático de Direito. V.Exa. bem sabe que, quando recebemos, em 1986, a força do poder originário, que é o próprio voto, para elaborar a Carta de 5 de outubro de 1988 - da qual me honro de haver sido o segundo signatário, antecedido apenas pelo grande brasileiro Ulysses Guimarães -, sentimos a ânsia do povo brasileiro para que puséssemos fim àquele quadro, que já era, naquele momento, de transição, e ingressássemos efetivamente no Estado Democrático de Direito. Meus cumprimentos a V.Exa. pelo magnífico discurso que profere neste instante. A SRA. YEDA CRUSIUS - Eu que o cumprimento. Permita-me incorporar suas palavras ao meu discurso, porque sempre tenho aprendido muito com V.Exa., seja quando Presidente do Congresso ou agora, quando companheiro da Câmara dos Deputados. As questões abordadas por V.Exa. me remetem, sem nenhuma quebra de continuidade, ao alerta que quero fazer. As instituições são fortes, a população é honesta e trabalhadora, a democracia está instalada, a inflação, qualquer que seja a política, está sob controle e não há perigo de explodir. A política econômica pode até mudar, porque a inflação não explode. As razões pelas quais ela explodia estão absolutamente afastadas e sob controle. Mas o alerta que faço - e tem a ver, inclusive, com o debate acontecido aqui desta tribuna ontem - leva-me a inscrever nos Anais da Casa algumas reportagens e opiniões para dar seqüência ao meu pensamento. Quando o presidente de um Poder, a exemplo do Ministro Edson Vidigal, dá entrevista à revista ISTOÉ e diz "estamos vivendo um Estado nazista", essa não é a palavra de alguém que, ideologicamente, queira colocar alguma bomba que cause morte de crianças como ontem no Iraque, a qual repudiamos e sofremos com ela. É o presidente de um Poder que sabe o que está dizendo. Quando ele diz que vivemos em um Estado nazista, tem a ver por exemplo com a Daslu, ontem, com a invasão dessa loja por 250 agentes da Polícia Federal. Se a dona da Daslu fez o que está listado como crime, merece pagar. Mas não me refiro a isso e, sim, ao ato apoteótico de invadir aquele prédio inaugurado com gigantescas propagandas e que, afinal, serve à classe alta. Tudo filmado, transmitido pela maior rede de comunicação do País, ocupando o espaço que tem sido permanente na transmissão dos escândalos a partir de Brasília. O alerta que faço é que, analisando o caso, chegamos à conclusão de que a Polícia Federal, que é instituição pública ligada ao Governo Federal, tem feito o seu trabalho - o qual tem obrigação de fazer, tem feito sempre, e seus resultados publicados no Diário Oficial da União, sem estardalhaço - através de ações espetaculares. Ações-espetáculo. Prender a dona da loja ou o irmão, seu sócio, ou seja lá quem for, se faz parte da operação, não foi feita como quer o Ministro da Justiça. Depois de outras, que geraram arranhões à instituição por agressivas e atentatórias ao rito de respeito aos sujeitos das investigações, o Ministério da Justiça publicou portaria orientando as ações da PF. Pois a ação espetacular ignora a portaria do Ministro, como registra notícia de hoje de O Estado de S. Paulo. Na esteira dessa notícia, lembro o que eu ouvi ontem e V.Exa. vai se lembrar - "a Polícia Federal está prendendo ricos". Sempre prendeu, mas não chamava a Globo para mostrar. Sempre prendeu, repito. Já se a Justiça não está apta a manter o rico na prisão, porque cometeu delito, vamos olhar a Justiça. Se necessário, alterar o rito que se manifesta insuficiente para manter, rico ou pobre, o que cometeu delito na prisão. Mas se ontem aconteceu e se diz "ah, vamos prender os ricos", alerto: daqui a pouco os ricos, todos eles, serão tomados por ladrões. Acabará a palavra "ladrão", que vai se transformar, no dicionário, na palavra "rico". Daqui a pouquinho - alerta do Ministro Edson Vidigal - denunciarão sem fundamento o filho de um ou o pai de outro, e dirão: "Vamos prendê-lo, é filho de tal, pai de tal". Mais tarde um pouco - e a história já registrou como tudo começou nos estados totalitários - poderão identificar e exigir: "Vamos prendê-lo. É judeu". Essa marca, ou qualquer outra escolhida, é semente para o nascimento do estado totalitário, que encontra seu meio nas ondas de insatisfação como as que se registraram no século passado, quando se instalaram regimes que produziram as mais cruentas e gerais guerras. Como a história já registrou essas fases, não há como repeti-las, exceto "como farsa", citando Marx. Perigoso, no entanto, é deixar-se levar por uma simplificação como essa de "prender ricos", na hora em que agora se denuncia no Brasil essa roubalheira, com esse mar de corrupção, que se organiza no Palácio do Planalto através do PT e se espalha para outros partidos políticos e para políticos desses partidos. Não vamos negar isso. O Delúbio, o Silvinho e o Valério já falaram. Cai toda a direção do PT, e eu sofro com os petistas que viveram um sonho por 25 anos, podendo ele ser realidade, e quando assume o governo do PT, apresenta-se como sonho nenhum, e sim como aparelhamento do Estado brasileiro. Não se está matando o sonho, mas sim constatando a sua apropriação por um partido apenas, na maneira pela qual ele poderia se traduzir em realidade através de um partido político apenas, como se dono do sonho fosse. Como se o sonho fosse o partido... Referi-me ao Ministro Edson Vidigal, e refiro-me agora ao que a FIESP fez hoje ao promover reuniões de empresários contra ações arbitrárias da Polícia Federal, que rejeita a simplificação: "Prende. É empresário". E aponto outra leitura, de uma revista que ninguém duvida que seja elaborada por atores da esquerda, que lutaram, cada um na sua luta, pelo fim do arbítrio, pela consolidação da democracia. É a revista Primeira Leitura, hoje nas bancas na sua edição mensal. Diz Reinaldo Azevedo, que registra na sua história a luta como militante comunista no passado: "Pesquisas qualitativas têm indicado que a população ainda preserva Lula do mar de escândalos em que está mergulhado o seu governo. O presidente faz, hoje, um esforço para 'despetizar-se', aproveitando o espaço que lhe tem facultado o sistema político - que, contra a lógica e a história, concede que ele possa ignorar o que se passa em seu próprio partido e mantenha uma reputação infensa à sua própria obra. Até quando? Vários dramas estão sendo representados ao mesmo tempo. O desfecho é incerto, mas era muito certo que chegaríamos aqui". É uma leitura que refiro para todos fazermos, concordando ou não. Não precisamos concordar, mas por muito menos outros dirigentes teriam se afastado, uma vez que sobre o Presidente Lula e seu partido recaem as denúncias seqüenciais do presente período. Como no artigo de Augusto Nunes, publicado na edição de hoje do Jornal do Brasil, intitulado Coisas da Política: A segunda morte de Celso Daniel. Não é pouco, é perigoso. Não é uma situação trivial, é algo violento. Nosso companheiro Celso Daniel - pois temos companheiros em todos os partidos políticos - habitava esta Casa e dizia: "O meu sonho é ser e voltar a ser Prefeito. Eu gosto de resolver as coisas do dia-a-dia da população". Como morreu Celso Daniel? Meu Deus, como se explica o que ouvi aqui quando nos negamos a eleger um indicado do PT para a Presidência da Câmara enquanto fosse feito o compromisso para a restauração da dignidade desta Casa, ofendida pela votações, inclusive de reformas, sem texto, em meio a madrugadas; enquanto não fosse resolvida a questão Celso Daniel; enquanto não se compromissasse a Agenda a Favor do Brasil, uma vez que o nominado pelo partido para ser Presidente ainda não tinha acabado de explicar o envolvimento do PT e de seus companheiros e a sua advocacia em relação ao caso Celso Daniel, às votações sem texto, aos compromissos não honrados? Não é trivial. Celso Daniel morreu torturado, num desvio de estrada. Ele gostava de jogar basquete, demonstração de que é possível ser uma pessoa normal, que a política não contamina como uma doença. Muitos aqui estão ficando doentes, afirmo. Quando chegarmos a agosto vamos ver a taxa de adoecimento dos Deputados e Deputadas desta Casa. Assumimos um desafio quando coisas desse tipo, como as denúncias seqüenciais, acontecem; quando o Congresso tem de parar para investigar, denunciar, ouvir denúncias e não ter medo de intimidações de qualquer ação da Polícia Federal, da ABIN ou de qualquer instituição usada por poucos para denegrir. Ou seja, aquilo que estava faltando na praça em 2003/2004 volta a ganhar condições de força entre nós. O que faltava era coragem, porque não havia organização que permitisse a coragem se manifestar eficientemente. Hoje, existe. Quanto à Daslu, os investigados estão presos, numa ação espetacular. E os investigados pelas CPIs no mesmo período? Soltos. Há os 5 milhões que a Telemar deu para uma empresa pequena; há outras informações se acumulando - e aí assoma outra questão quando nos param no aeroporto, na calçada; quando damos palestra; quando falamos com gente de todo tipo, gente simples, iletrada e letrada, e a pergunta é: não é caso de impeachment? Por menos, já não se disse que pessoa que coordena com o seu partido esquema que se está transformando em aberto e teima em recusar sua responsabilidade não está sujeita a impeachment? E nós, com nossa ação política, do PSDB, dizemos: olha, se todos, Câmara dos Deputados, Senado Federal, imprensa, Governo Federal, Ministério Público, respondermos dizendo sim, com seriedade e responsabilidade, às investigações; se todos pudermos juntos, acima dos partidos, enfrentar o que precisa ser mudado para consertar o estrago, pode-se sim chegar à conclusão de ser caso de impeachment. Respeitamos, como precedente a tudo, o resultado das eleições de 2002, e o processo de investigação sobre as denúncias e os possíveis crimes e responsáveis por eles. O voto levou S.Exa. para a Presidência da República. Se tudo que se comprova agora aqui permanece no futuro, o voto o tirará de lá. Isso não é questão partidária, não é embate PT-PSDB porque conversamos entre nós, PT, PSDB, PDT, PMDB, PFL, PPS, PSB, democratas de todos os partidos. O meu alerta, que desejo reafirmar com todas as letras, é que essa crise não está sendo reconhecida como oportunidade de mudança pelo outro lado da Esplanada, o Palácio do Planalto. Não está. As últimas versões sobre os fatos, seus responsáveis, incluindo as declarações do Sr. Presidente da República, assustam. Pela inverosimilhança. Pela tentativa de generalização, como se tudo sempre tivesse sido assim, se todos fossem iguais. Não, se tivesse havido algo parecido, já teria vindo à luz como estão vindo à luz hoje. Não, nunca foi assim. O meu alerta é que há o perigo, sim. Sem medo da repetição da história, alerto para a tentativa de acobertamento e uso das instituições para intimidar, como no texto escrito pelo pastor que, ao ver o nascimento do nazismo, disse: "Eu vi pisarem no jardim do meu vizinho e matarem a flor. Em seguida, vi levarem o meu vizinho". Essa passagem é linda e todos já a conhecem, porque o texto é constantemente reproduzido a cada tentativa de "mordaça". "E por fim, quando vieram me buscar, não tinha nenhuma voz para se levantar e me defender". Esta tribuna é aberta e tem de permanecer assim. Para tanto a Casa deve ser respeitada. Deve recuperar seu respeito. O alerta que faço é sobre a oportunidade de, com essa crise, podermos consertar as estruturas que corrompem o Poder. Estamos vivendo uma crise moral que está sendo repassada para os partidos políticos e para determinadas instituições. Se essa oportunidade for percebida - e acredito que possa sê-lo -, porque, como disse, a maioria do povo brasileiro, honesta e trabalhadora, é informada, em razão da liberdade de expressão, pela imprensa livre, não deixará surgir alguém que considere esta uma oportunidade para o retrocesso da democracia. A população pagou e paga pelo desenvolvimento da democracia, pelos custos na forma de dívida que carregamos no Plano Real, que eram os esqueletos que ninguém queria reconhecer para enterrar, que eram as dívidas eternamente não pagas e jogadas adiante, que tiravam a auto-estima de qualquer pessoa que assinasse contrato. Com tudo o que já evoluímos, o certo é que a população não deixará essa oportunidade negativa se processar. Já não deixou em 1988, já não deixou em 1992, não deixa agora. Quando enfrentamos uma Oposição raivosa - a Oposição era raivosa, fazia o seu exercício de oposição revolucionária, e o fazia porque pensavam alguns que a revolução (que revolução?) justificava tudo -, e fizemos isso, está aí a inflação sob controle. Quando vejo que todos esses estágios de evolução da democracia se processaram, confio em que não há de surgir ocasião de o oportunista se manifestar. Pelo contrário, aqui temos de negar e barrar essa possibilidade. Não precisamos. A população já sabe disso, já está educada o suficiente para isso, para perceber o que esse volume inacreditável de dinheiro em malas, em saques bancários, significa. Significa que pelo copo de água que bebo, pelo papel que compro, pelos serviços dos Correios, pela tarifa telefônica, poderia pagar menos. Estamos vivendo muito caro. A diferença entre o que pagamos e o que poderíamos pagar é o volume inacreditável de bilhões roubados da renda formal ou informal dos brasileiros. Atacar a corrupção significa dizer: só com isso - nossa inflação foi a mais alta durante os últimos 12 meses dos países MERCOSUL: Uruguai, Argentina, Chile, Paraguai -, evitando que caixa 2 seja gerado e transferido, cortando a corrupção na fonte, para o que ofereci projetos de lei, poderíamos viver mais barato. Atacar a corrupção é dizer que não é preciso que a taxa de juros esteja nesse patamar. O que é preciso é fazer com que paguemos o preço pelo qual as coisas são fabricadas, inclusive com lucro. Então, Sr. Presidente, desse alerta, que farei publicar, cumprimentando Reinaldo Azevedo, J. A. Giannotti, todos os homens e mulheres do Primeira Leitura, pelo trabalho que têm feito, reafirmo que me sinto acompanhada pelo Deputado Fernando Ferro e a sua poesia maravilhosa, pelos Deputados Paulo Delgado e o sentido mandarim de crise como oportunidade, e Fernando Gabeira, com o artigo que anexo a este manifesto, e por todos os atores anônimos que agem para que possamos enfrentar essa crise não por menos, mas por mais democracia. O SR. PRESIDENTE (Fernando Ferro) - Muito obrigado, Deputada Yeda Crusius. Viva a democracia, por permitir a expressão dos seus sentimentos oposicionistas e da sua reflexão para todos nós, e esta Casa, merecedora de todo o respeito!
| ARTIGO A QUE SE REFERE A ORADORA |
Flores, flores para los muertos
(Folha de S. Paulo, 18 de junho de 2005)
Sempre que os fatos ganham velocidade, costumo comprar um bloco de notas. Anoto frases, idéias, intuições e deixo que se decantem com o tempo. Volto a elas, depois, para rejeitá-las ou desenvolvê-las. A primeira frase que me veio à cabeça foi a da vendedora de flores que encerra um filme.
O pequeno bloco também tem idéias. Por exemplo: comparar a ditadura com o governo Lula. Uma neutralizou o Congresso pelo medo; o outro, pelo pagamento de mesada. Ditadura e governo Lula compartilham o mesmo desprezo pela democracia, ambos violentaram a democracia reduzindo o Parlamento a uma ruína moral.
Os militares prepararam sua saída de forma organizada. Nem muito devagar para não parecer provocação nem muito rápido para não parecer que estavam com medo. Já o núcleo duro do governo Lula parece perdido, batendo cabeça, ou melhor, enfiando-a na areia, sem perceber que a polícia está chegando e, daqui a pouco, alguém vai gritar na porta do Planalto: "Se entrega, Corisco".
Quando era menino e vivia em Juiz de Fora, fazíamos rodas de capoeira, bastante rudimentares, confesso. Mas cantávamos: "A polícia vem, que vem brava/quem não tem canoa, cai n'água".
Tudo isso jorra aos borbotões na minha caderneta. Anotei: chamar alguém do "Guinness", o livro dos recordes, para saber se algum tesoureiro de qualquer partido do mundo se desloca com batedores de motocicleta e carros clones para iludir perseguidores; se algum tesoureiro partidário se desloca com jatos particulares, semanalmente; se introduz no palácio associação de empreiteiros que receberam R$ 1,1 bilhão de dívidas.
Os militares batiam, davam choques e insultavam na sessão de tortura, mas vi muitos dizendo que me respeitavam porque deixei um bom emprego para combatê-los com risco de vida. Eles viam ideais no meu corpo arrasado pelo tiro e pela cadeia.
O PT queria que eu abrisse mão exatamente da minha alma, e me tornasse um deputado obediente, votando tudo o que o Professor Luizinho nos mandava votar. Os militares jamais pediriam isso. Desde o princípio, disseram que eu era irrecuperável e limitaram-se à tortura de rotina.
Jamais imaginei que seria grato aos torturadores por não me pedirem a alma. Não sabia que dias tão cinzentos ainda viriam pela frente. Que seria liderado por um homem que achava que Maurício de Nassau era um deputado de Pernambuco. Logo eu, que sou admirador de um deputado pernambucano chamado Joaquim Nabuco.
Foram os anos mais duros de minha vida. No meu caderno anoto frases e indicações da semelhança da luta contra a ditadura e da luta contra este governo, desde que comecei a criticá-lo, com a importação de pneus usados. As pessoas têm suas carreiras, seus empregos, suas racionalizações. É preciso respeitá-las, atravessar o deserto sem ressentimentos.
Agora, sobretudo, é preciso respeitar o sofrimento dos vencidos. Outro dia, quando me referi a um núcleo na Casa Civil como um bando de ladrões que atentava contra a democracia, uma jovem deputada do PT estremeceu. Senti que não estava ainda preparada para essas palavras cruas. E fui percebendo pelas anotações que talvez esteja aí, para o escritor, o mais rico manancial de toda essa crise. Como estão as pessoas do PT? Como se ajustam a essa nova realidade, que destino tomaram na vida?
Procuro não confundir, entre os que ainda defendem o governo, aqueles que são cínicos cúmplices e os outros que apenas obedeceram a ordens sob a forma da aplicação do centralismo democrático. Alguns defendem porque ainda não conseguiram negociar com sua própria dor. Não podem suportá-la de frente. Mas terão de fazer algum dia, porque, por mais ingênuos que sejam, já perceberam que a mãe está no telhado.
Vamos ter de encarar juntos essa realidade. A grande experiência eleitoral da esquerda latino-americana, admirada por uma Europa desiludida com Cuba e Nicarágua, a grande novidade que verteu tintas, atraiu sábios, produziu livros e seminários, vai acabar na delegacia como um triste fato policial de roubo do dinheiro público e suborno de parlamentares.
Só os que se arriscarem a ir até o fundo dessa abjeção, compreendê-la em todos os seus detalhes mórbidos, têm chances de submergir para continuar o processo histórico. Por incrível que pareça, o Brasil continua, e a vontade de mudar é mais urgente do que em 2002. Por isso proponho agora um curto e eficaz trabalho de luto.
Anotação final: começa o espetáculo da CPI, secretárias e suas agendas, ex-mulheres e suas mágoas, arapongas, tesoureiros e seus charutos, vossa excelência para cá, vossa excelência para lá, sigilos bancários, telefônicos, emocionais. Viu, Duda, que cenas finais melancólicas quando um mercador tenta aplicar à complexidade da política a singeleza do vendedor de sabonetes? (F.G.)
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