| Pronunciamento
do Deputado Inácio Arruda (PCdoB-CE), realizado no Plenário
da Câmara dos Deputados, no dia 18/12/2001, acerca da carência
de profissionais de saúde e seu impacto na estrutura de
Saúde Pública do Estado do Ceará. |
Sr. Presidente.
Sras. e Srs. Deputados.
O governo Fernando Henrique continua sua obra destinada a destacar
o Brasil diante do mundo. Segundo Relatório da Organização
das Nações Unidas (ONU), a distribuição
de renda brasileira somente supera as de Serra Leoa, Jamaica e República
Centro-Africana. Em conseqüência, a crescente miséria
dos que se encontram na base desse castelo de desigualdade ocorre
em consonância com o agravamento da situação da
Saúde no País.
A omissão
do poder público no enfrentamento dos problemas de habitação,
saneamento, concentração fundiária, desemprego
e violência se reflete na degradação generalizada
da vida e da saúde dos brasileiros. Assim, a situação
das cidades, articulada com a formidável concentração
da renda, determina o agravamento das demandas de saúde. Os
municípios crescem de forma desordenada, sem planejamento urbano.
A concentração demográfica nas regiões
metropolitanas forma caóticos aglomerados humanos, contribuindo
para o agravamento dos problemas sociais.
Com a universalização
da saúde, conquistada na Constituinte de 1988, o Estado estaria
obrigado a assumir o compromisso de assegurar ao cidadão o
direito à saúde, independente de sua condição
econômica, política, social ou religiosa. Mas, os reduzidos
valores repassados pelo Sistema Único de Saúde (SUS)
têm contribuído para a falência de pequenos hospitais
do interior, além de gerar demissões e descredenciamento
de serviços do SUS nas grandes cidades.
Na prática, o SUS, que representa uma conquista da sociedade
civil organizada, tem se desgastado, tornando-se ineficiente, pois
o alargamento do atendimento médico-hospitalar não foi
acompanhado da devida ampliação de recursos financeiros
para o setor. A estrutura atual é incapaz de atender os 120
milhões de brasileiros que dependem exclusivamente do SUS.
A rede de atenção
básica apresenta problemas de funcionamento. Os postos de saúde
funcionam com um número limitado de profissionais, além
da falta de equipamentos e medicamentos necessários. Desse
modo, a população busca assistência nos hospitais
de grande porte, sobrecarregando os setores de emergência, inclusive
prejudicando o atendimento dos pacientes que necessitam de tratamento
especializado.
Chamo a atenção
para a existência de uma proposta de reestruturação
do nível de assistência, baseada na Norma Operacional
Básica de 1996, do Ministério da Saúde, que delimita
as áreas de atuação do Estado e Município
para a gestão de saúde. Pela legislação,
a atenção básica seria de responsabilidade municipal,
cabendo ao Estado o atendimento nas redes secundária e terciária.
Contudo, ressalto que a mera proibição do atendimento
primário nos hospitais terciários não resolve
o problema. Pelo contrário, se não dotarmos os postos
de saúde de uma estrutura adequada ao atendimento básico,
a situação tende a se agravar ainda mais, visto que
o público-alvo deixa de receber a assistência ofertada
naquelas unidades hospitalares, restando abandonado à própria
sorte.
No Jornal O POVO,
de 09/09/01, o Coordenador de Saúde do Município de
Fortaleza reconhece que o funcionamento de alguns postos de saúde
é deficiente, apontando como principal causa a carência
de médicos, realçando a necessidade de reestruturação
do serviço. Isso requer obviamente a contratação
de mais profissionais de saúde e o aporte dos equipamentos
necessários às condições mínimas
de funcionamento para que a população possa dispor de
um atendimento minimamente eficaz.
Após a
criação do SUS, o governo federal lançou, em
1994, o Programa de Saúde da Família (PSF), com o objetivo
de proporcionar o atendimento primário de saúde nas
zonas rurais, destinado em especial às regiões Norte,
Nordeste e Centro-Oeste. As equipes deveriam residir no local, compostas
por um médico, um enfermeiro, um auxiliar e cinco agentes de
saúde. No Ceará, esse programa encontra-se ameaçado
pela ausência dessas equipes, notadamente de médicos.
Das 1.140 equipes cadastradas, 280 estão desativadas. Dos 184
municípios cearenses, poucos estão com suas equipes
formadas, segundo o presidente do Conselho de Secretários Municipais
de Saúde, Jurandir Frutuoso. Diariamente, é possível
observar, nos principais jornais de Fortaleza, a oferta de vagas para
médicos nas prefeituras municipais do Ceará.
Cada equipe custa
ao poder público R$ 12 mil, submetida a um contrato de trabalho
que não respeita a legislação trabalhista. Não
existe concurso público para o preenchimento das vagas ofertadas.
Diante dessa situação de instabilidade, os profissionais
de saúde não se motivam ao trabalho na zona rural, mesmo
com bons salários. O presidente do Conselho Regional de Medicina,
Antônio Lino Cavalcante, afirma que a insegurança trabalhista
e a falta de condições de trabalho afastam o médico
da atuação no interior. Segundo ele, o Ceará
tem 6.020 médicos em atividade, dos quais somente cerca de
mil atuam no interior. Portanto não há falta de médicos,
mas de concurso público. E com urgência, pois a ausência
desses profissionais prejudica todo o trabalho de atenção
primária no interior, fundamental para reduzir a pressão
sobre as unidades de grande porte da capital.
Existe um temor significativo quanto ao agravamento dos índices
de mortalidade infantil. Conforme dados da Secretaria de Saúde
do Estado do Ceará, 93 municípios, representando 50,5%
do total, estão com índices mais elevados que a média
de todo o Estado.
Municípios
com maiores índices de mortalidade infantil em 2000
(percentual referente ao do Estado no mesmo período -- de 28,75%) |
|
Município
|
% |
Município |
% |
Município
|
%
|
|
Solonópole
|
191,11 |
Massapé
|
51,78 |
Catarina
|
42,78 |
|
Barroquinha
|
80,70 |
Poranga
|
50,98 |
Piquet
Carneiro
|
42,65 |
|
Granjeiro
|
75,63 |
Arneiroz
|
50,42 |
Bela Cruz
|
42,55 |
|
Ererê
|
74,07 |
Missão
Velha
|
50,35 |
General
Sampaio
|
42,25 |
|
Altaneira
|
66,67 |
Choro
|
49,30 |
Ibicuitinga
|
42,25 |
|
Ibaretama
|
65,42 |
Orós
|
48,91 |
Mombaça
|
42,10 |
|
Itatira
|
64,98 |
Ipaporanga
|
47,27 |
Ipú
|
41,87 |
|
Graça
|
60,00 |
Jati
|
45,87 |
Meruóca
|
41,83 |
|
Aurora
|
58,82 |
Aiuaba
|
45,20 |
Ubajara
|
40,88 |
|
Antonina
do Norte
|
56,96 |
Morrinhos
|
44,35 |
Cruz
|
40,32 |
|
Frecheirinha
|
56,54 |
Chaval
|
44,25 |
Iço
|
39,85 |
|
Uruóca
|
55,56 |
Tarrafas
|
44,20 |
Granja
|
38,83 |
|
Tianguá
|
53,11 |
Paramoti
|
44,03 |
Farias
Brito
|
38,79 |
|
Salitre
|
52,34 |
Carnaubal
|
43,89 |
|
|
| Fonte:
Secretaria de Saúde do Estado do Ceará |
O tratamento oferecido
pelo governo ao PSF revela sua total falta de compromisso com a população
de baixa renda, visto que é menos oneroso colocar em risco
vidas humanas do que estabelecer um contrato de trabalho digno, capaz
de garantir um serviço de qualidade. Os Programas de Agente
Comunitário de Saúde desenvolvidos pelo Ministério
de Saúde constituem verdadeiro desrespeito à saúde
da população e aos direitos dos trabalhadores que se
submetem a contratos temporários diante da realidade de desemprego
em vigor no País. No Ceará, agentes de saúde
responsáveis pela assistência da Regional I, paralisaram
suas atividades, reivindicando melhoria salarial e garantias trabalhistas.
Desse modo, ficaram prejudicados naqueles bairros os programas de
vacinação infantil, combate à dengue, tratamento
e prevenção da tuberculose e hanseníase.
A grande dificuldade
reside no desprezo pelas necessidades básicas da população
e na submissão incondicional à agenda do FMI, que determina
o padrão das relações trabalhistas e o desmonte
da máquina estatal, cumprindo um plano sistemático de
fechamento dos postos de trabalho.
Essa política
resulta também na carência de leitos na Unidade de Terapia
Intensiva (UTI), comprometendo o atendimento na rede secundária,
pois superlota os leitos das Unidades de Terapia de Urgência
(UTU). Somente no período de novembro de 2000 a junho deste
ano, morreram, no Frotinha de Parangaba, 191 pacientes à espera
de leito em UTI. Diante desse quadro, foi instalada recentemente,
na Câmara Municipal de Fortaleza, a CPI do Funcionamento das
UTUs e UTIs dos Hospitais Públicos de Fortaleza. Num estudo
realizado, o déficit de UTIs na rede hospitalar de Fortaleza
foi estimado em 825 leitos.
A Organização
Mundial de Saúde (OMS) recomenda que devem existir entre dois
e quatro leitos hospitalares para cada 1.000 habitantes. O número
de leitos em UTI deve variar entre 5 a 10% do total de leitos dos
hospitais. Para a população de Fortaleza e Região
Metropolitana, com um total de 2,9 milhões de habitantes, seriam
necessários 11.512 leitos hospitalares e 1.151 leitos de UTI.
Mas existem apenas 326 leitos de UTI, dos quais 158 na rede privada
e 168 na rede pública.
O Ministério Público defende a criação
de leitos de UTI em hospitais secundários. Em matéria
veiculada no Jornal O POVO, na edição de 03/10/01, o
promotor Luciano Percicotti Santana reafirma que se estes hospitais
possuem atendimento de urgência e emergência, estão
aptos à criação de leitos de UTI. O relatório
apresentado como resultado das investigações da CPI
sugere a ampliação do número de leitos de UTI
nos hospitais públicos para combater o índice de mortalidade
dos pacientes e a contratação de médicos para
cuidar dos pacientes graves nas UTUs.
Numa tentativa
de viabilizar o atendimento da crescente demanda, o poder público
recorreu a serviços conveniados com instituições
filantrópicas e credenciamentos de hospitais privados no SUS.
Entretanto, tal iniciativa não foi suficiente, pois o valor
pago às redes privada e filantrópica cobre apenas os
custos fixos do serviço ofertado. Desse modo, não há
nenhum interesse para a rede privada em ampliar essa oferta de leitos,
visto que a tabela de preços do SUS para pagamento da assistência
médico-hospitalar é irreal. Cabe ao poder público
dar uma resposta a essa situação, que tem sido responsável
por um significativo número de mortes no Ceará.
Desse modo, fica
evidente o que é prioridade para os dirigentes da Nação.
Sob essa lógica percebemos que os gastos com Saúde e
Educação são inferiores aos gastos com juros,
atingindo os R$ 34 bilhões em 1999, segundo estudo apresentado
pelo IBGE. Consideradas as perdas com a desvalorização
de janeiro do mesmo ano, R$ 130,3 bilhões saíram pelo
ralo da ciranda cambial. No ano 2000 a situação segue
o mesmo rumo. Até novembro, os gastos com juros representam
o dobro dos gastos com Saúde.
Precisamos estar
atentos ao cumprimento da emenda constitucional 29, aprovada nesta
Casa, no ano passado, que fixa os gastos mínimos com saúde
para estados e municípios, estabelecendo percentuais para aplicação
no período 2000-2004 e envolvendo recursos provenientes da
variação do PIB nominal. A referida emenda é
resultado de uma ampla luta travada pelo movimento SOS SUS, alterando
os artigos 34, 35, 156, 160, 167 e 198 da Constituição
Federal e acrescentado artigo ao Ato das Disposições
Constitucionais Transitórias, com o fim de assegurar os recursos
mínimos para o financiamento das ações e serviços
públicos de saúde.
Conforme informações
prestadas à Frente Parlamentar de Saúde, os governadores
e prefeitos não vêm cumprindo a emenda. Apesar dos esforços
destinados à adoção de medidas voltadas para
a aplicação de recursos financeiros no setor, é
muito claro o desprezo pela população que não
tem acesso aos planos de saúde, numa atitude de afronta à
Constituição. É preciso definir critérios
de repasse, impedir que as transferências da União sejam
incluídas nos percentuais estaduais e municipais e evidenciar
que o PIB do aumento federal é do ano anterior.
O Hospital São
José (HSJ), referência para doenças infecto-contagiosas
no Ceará, vem realizando um atendimento precário em
conseqüência da carência de profissionais de saúde.
Dispõe de 536 funcionários, além de 69 prestadores
de serviços terceirizados; é responsável pelo
atendimento diário de 200 pessoas, possui 116 leitos, dos quais
32 para pacientes soropositivos. No último dia 11 de setembro
foi realizada uma manifestação no HSJ a partir da denúncia
da carência de pessoal, pressionando o Governo do Estado para
a contratação de profissionais mediante concurso público,
com a finalidade de proporcionar um melhor atendimento à população.
Segundo os manifestantes, o São José já apresenta
uma carência de 28 funcionários, e, com a conclusão
da reforma prevista para este ano, a necessidade cresce para 119 profissionais.
Apesar da resistência
inicial do Secretário de Saúde do Estado, o movimento
dos funcionários do HSJ - pautado pela determinação,
unidade e amplitude - foi decisivo para modificar a posição
oficial e garantir a realização do concurso público,
anunciado no dia seis de novembro. Somente agora, com a ameaça
de paralisação, o governo Tasso contemplou esta antiga
reivindicação dos servidores, temendo um grande caos
oriundo da suspensão dos tratamentos de controle viral. A organização
dos servidores do HSJ foi fundamental para a abertura do concurso,
que, de acordo com a presidente do Sindicato dos Médicos do
Ceará, Fátima Dias, foi "uma grande vitória".
O Centro Integrado
de Diabetes e Hipertensão (CIDH), no Ceará, também
sofre com a falta de profissionais de saúde, visto que são
realizadas, periodicamente, campanhas de detecção de
doenças, o que resulta num aumento da demanda. Revela uma atitude
irresponsável a promoção de campanhas do gênero
sem a estrutura necessária para o tratamento do doente. O atendimento
no CIDH está suspenso para os pacientes que necessitam de consultas
pela primeira vez. Até mesmo aqueles que são encaminhados
por outras unidades de saúde são constrangidos a esperar
três meses por uma consulta. De acordo com a diretora do CIDH,
Adriana Forti (jornal O POVO, edição de 29/05/01), o
Centro está superlotado, sem condições de realizar
uma triagem para novos pacientes. E, além da demanda espontânea,
cerca de 200 pacientes com consultas referendadas passam por lá
diariamente.
O CIDH é
uma unidade de referência para Fortaleza e interior do Estado.
Dispõe de 22 médicos, dos quais somente quatro são
endocrinologistas, com a responsabilidade de acompanhar todos os que
estão em tratamento na unidade (o Ministério da Saúde
aponta para a necessidade de dez profissionais com essa especialidade).
As restrições
ao orçamento da Saúde são inexplicáveis.
Relatório do Conselho Nacional de Saúde demonstra que
a arrecadação da União, através da Receita
Federal, cresceu 80%: entre 1995 e 1999 saltou de R$ 84 bilhões
para R$151 bilhões. Desse modo, se o governo Fernando Henrique
sustentasse um mínimo compromisso com o povo brasileiro, teria
mantido a proporcionalidade na distribuição das receitas
de contribuição e o orçamento da Saúde
já deveria ter sido de R$ 30 bilhões em 1999 - independente
de qualquer emenda constitucional. A arrecadação da
CPMF, criada para aplicação na Saúde, cresceu
50% também no mesmo período. Nesse caso, mantida a mesma
proporcionalidade, o orçamento da Saúde para 2000 já
deveria ter sido de R$ 38 bilhões.
As Conferências
e os Conselhos de Saúde, com a participação de
50% de usuários, devem ser respeitados como fóruns de
deliberação, com direitos claramente estabelecidos na
Lei 8.142, cabendo a estas instâncias definir as diretrizes
do plano de saúde em cada esfera de governo e fiscalizar a
execução política e financeira. As Conferências
de Saúde ocorrem de quatro em quatro anos, exatamente para
que os governos apresentem seus Planos de Saúde para discussão
e deliberação. Defendemos que o Ministério de
Saúde apresente um Plano Nacional de Saúde, com o objetivo
de assegurar a saúde dos brasileiros em sintonia com o direito
conquistado na Constituição.
É preciso
reafirmar os princípios do SUS - de universalidade, integralidade,
descentralização e democracia. É urgente o reajuste
do Piso de Atenção Básica, o qual se encontra
no vergonhoso patamar de R$ 10,00 per capita/ano, além da defasada
tabela do SUS, que precisa de mudanças nos valores e nos critérios
de aplicação, posto que privilegia os procedimentos
de alta complexidade em detrimento do trabalho dos profissionais de
saúde.
Nas unidades do SUS encontramos servidores federais, estaduais e municipais,
trabalhadores celetistas, além de outras relações
de trabalho ("cooperados", prestadores de serviço,
etc.) nas mais diversas organizações - inclusive não-governamentais,
privadas, associações, etc. - todas, quase sempre, refletindo
a precarização dos direitos dos trabalhadores.
É imprescindível
um Plano de Cargos, Carreiras e Salários digno e coerente com
a importância que tem o SUS e a indispensável capacitação
dos profissionais de todos os níveis e de todas as áreas.
É urgente a reversão desse quadro de grave insuficiência,
que apenas agrava a situação de saúde da população
e do País.
É o que tenho a dizer.
Deputado
Inácio Arruda
Líder do PCdoB
