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Idioma e Soberania - Nossa Língua, Nossa Pátria
Empréstimos Lingüísticos: Tradição e Atualidade Volnyr Santos (terceira parte) - Já o Novo Aurélio - O Dicionário da Língua Portuguesa - Século XXI vai além, alardeando a abonação de 435.000 verbetes, indicando, com isso, o caráter de modernidade lingüística que sempre caracterizou essa publicação. Significa dizer que o Novo Aurélio tem mais palavras que Vocabulário Ortográfico, o documento legal. Sobre o número de verbetes o que daria à língua portuguesa um acervo lexical considerável é preciso referir que, nesse número, o Aurélio considera as variações (dialecto, facto, fenómeno, por exemplo) como verbetes, que, na realidade, funcionam apenas como apelo mercadológico, conforme já acentuou Cláudio Weber Abramo no Caderno Mais (Folha de S.Paulo, edição de 23 de janeiro de 2000). A respeito do léxico, acrescente-se que ele depende sempre da realidade exterior, não-lingüística. O léxico compreende dois tipos de palavras: as chamadas palavras lexicais, que constituem o sistema aberto de comunicação em face de sua mobilidade (surgimento, desaparecimento, transformações de sentido). São caracterizadas pelos nomes (substantivos, adjetivos, advérbios) e pelos verbos. Já as palavras gramaticais são as que exprimem as relações entre as idéias, a contextura da língua, o sistema, a gramática, representadas pelas desinências verbais (tema, vogal temática), artigos, pronomes, conjunções, preposições. Constituem o sistema fechado da comunicação. Embora sejam as palavras lexicais aquelas que modificam o vocabulário, são no entanto as palavras gramaticais as que caracterizam a língua. As palavras gramaticais são em número reduzido e limitado (em torno de 100 palavras), enquanto que as palavras lexicais, em estado de permanente renovação, incorporam-se e integram-se à língua, através de adaptações gráficas, morfológicas ou semânticas. Ainda que de número reduzidíssimo praticamente imutável, as palavras gramaticais são responsáveis pela estrutura da língua. É no sistema fechado que se dá a língua. A gramaticalidade da língua se dá nas palavras gramaticais. Vejamos, por exemplo, a seguinte frase, composta por palavras que não existem: Basmava como se as téquias risassem nas lápadas emascentes. Posso dizer seguramente que é uma frase, um enunciado em língua portuguesa, embora eu não conheça os termos basmar, téquias, risar, lápadas, emascentes. De fato não encontrei registro dessas palavras em lugar algum, mas posso dizer que são portuguesas, porque a estrutura da língua, não o léxico, mas a estrutura gramatical me mostra que são portuguesas. É pela identificação das palavras gramaticais que se pode caracterizar o enunciado como sendo da língua portuguesa, já que, mesmo que se ignore o significado do verbo basmar, é possível definir não só a sua ação no pretérito imperfeito do indicativo, na 3ª pessoa e, ainda, no singular, mas também tratar-se de um verbo de 1ª. conjugação. Assim também o termo téquias, porque está antecedido de um artigo no feminino/plural, indica tratar-se de um substantivo feminino. Já risassem que, pelas palavras gramaticais, se vê estar conjugado no pretérito imperfeito do subjuntivo, na 3ª. pessoa do plural, mostra-se como um verbo intransitivo de 1ª. conjugação. Nas é combinação da preposição em mais o artigo as, o que só existe em português. A expressão nas lápadas emanescentes, na função de adjunto adverbial, é composta de um substantivo feminino no plural (lápadas), indicado pela flexão as, assim como um adjetivo no plural: emanescentes. Como disse, nas palavras gramaticais é que está a estrutura da língua. Se palavras inexistentes permitem a leitura feita anteriormente, note-se que, em se tratando de palavras estrangeiras, o fenômeno é o mesmo. Mesmo que se utilizem termos de outras línguas, é possível identificar, sob a forma estrangeira, o caráter português da língua. Vejamos o seguinte exemplo: O office-boy brevetou-se em skate no shopping. Uma rápida leitura mostra que a frase acima está redigida com palavras lexicais estrangeiras:
a) office-boy, skate, shopping são palavras inglesas: b) brevetou-se < breveter (palavra francesa) > brevetar (obter diploma de vôo) Essa circunstância, no entanto, não impede a afirmação de que se trata de um enunciado em língua portuguesa, mesmo que todas as palavras lexicais sejam termos ingleses e franceses. E isso se deve ao fato de a estrutura do enunciado ser gramaticalmente portuguesa, como evidenciam as palavras gramaticais e seus morfemas: o, -ou, se, em, em, o. Argumenta Gladstone Chaves de Melo que o vocabulário, termo entendido como sendo as palavras lexicais, constitui num idioma o que se chama nomenclatura, ao passo que o que traça a fisionomia da língua, isto é, as palavras gramaticais, é a estrutura. Nessa medida eu posso lidar com a questão que envolve o aportuguesamento de palavras estrangeiras.
Léxico português? Texto n° 1: A novela Todos os detalhes foram gravados para a reportagem de rotina. Havia uma equipe, ainda que um pouco defasada, para fazer a triagem. Ao gravar a imagem do diplomata, homem de grande magnetismo, constatou-se que também a paisagem milionária do jardim de sua casa era feérica. A surpresa foi madame: uma grande dama da moda. Possuía jóias de platina e tudo nela ficava chique: roupa de organdi, cetim, sarja e até um traje de pelúcia. Cometeu, porém, uma gafe: quase desmaiou e perdeu o charme. Chamada às pressas, a ambulância, para entrar na garagem, precisou manobrar entre as colunas da marquise. A viatura derrapou, mas o chofer foi capaz de controlar o guidom. Apesar do susto, madame passa bem. Após a gravação, já no guichê do aeroporto, os funcionários solicitaram um texto de publicidade por telex. As equipes da reportagem vão estar de plantão para editar o filme para exibição no estrangeiro. As chances de sucesso são grandes. Não vou fazer nenhum teste, mas alguém poderia dizer que língua dá origem às palavras que estão em negrito? Língua francesa. Todas as palavras em negrito, praticamente todas elas, substantivos ou adjetivos, raros verbos, são palavras francesas. Usamos essas palavras a todo momento, até ignorando que se trata de palavras franceses.
Texto n° 2: Filme Era um esforçado esportista, embora um pouco esnobe: jogava tênis, treinou boxe algumas vezes, gostava de golfe e turfe. Nunca chegou a craque em nenhum esporte, embora desse uns chutes ocasionais nas partidas de futebol com os colegas. Durante algum tempo, tentou ser jogador de bridge e, inclusive, repórter esportivo. Casado, morava num bangalô. Sua mulher era avessa ao uso de biquíni; gostava, porém, de visitar os magazines, fazendo estoques de roupas de náilon e de jérsei. Na cozinha, era perita em lanches e sanduíches de variada espécie; não apreciava, porém, bifes de qualquer natureza; eventualmente, tomava uísque com o marido. Como turistas, entendiam-se bem. Um pulôver e um suéter eram suficientes para os reiterados piqueniques. A vida no clube era agradável: um jogo de pôquer ou sinuca com os amigos, um passeio de jipe ou, eventualmente, de iate. Viviam bem, porque ganhavam em dólares.
Talvez não sejam necessárias muitas explicações para se perceber, com os dois exemplos, que: a) em relação ao texto n° 1, se trata de palavras de origem francesa e, em relação ao texto n° 2, se trata de palavras de origem inglesa; b) nos dois casos, as palavras já estão integradas à língua portuguesa, fazendo parte do seu acervo lexical; c) são termos dicionarizados; d) são palavras usadas, no mais das vezes, sem que o falante tenha consciência do fato gerador de tais termos, isto é, de que são empréstimos lingüísticos. 1. Da língua francesa: novela < nouvelle gafe < gaffe detalhe < détail desmaiou < esmaiier gravados < graver charme < charme reportagem < reportage ambulância < ambulance rotina < routine garagem > garage equipe < équipe manobrar < manouvrer defasada < déphasage marquise < marquise triagem < triage viatura < voiture gravar < graver derrapou < dérapage diplomata < diplomate chofer < chauffer magnetismo < magnétisme controlar < contrôler constatou-se < constater guidom < guidon paisagem < paysage gravação < graver milionária < millionaire guichê < guichet jardim < jardin funcionários < functionaire feérica < féerique publicidade < publicité madame < madame telex < télex dama < dame equipes < équipe moda < mode plantão < panton jóias < joie editar < éditer platina < platine estrangeiro < estranger < étranger chique < chic chances < chance organdi < organdi cetim < cetim sarja < sarge pelúcia < peluche
2. Da língua inglesa: filme < film esportista < sport esnobe < snob tênis < tennis boxe < box golfe < golf turfe < turf craque < crack esporte < sport chutes < shoot futebol < foot-ball bridge < bridge repórter < reporter * bangalô < bangalow biquíni (biquine) < bikini magazines < magazine * estoques < stock náilon < nylon jérsei < jersey lanches < lunch sanduíches < sandwich bifes < beef uísque < whisky turistas < tourist * pulôver < pull-over suéter < sweater piquenique < picnic clube < clube pôquer < poker sinuca < snooker jipe < jeep iate < yatch dólares<dollar *É tão comum a influência entre as línguas que, mesmo num corpus sumamente restrito quanto o apresentado, as palavras turista, do inglês tourist (através do francês touriste), magazine, do inglês magazine (através do francês magasin ou do italiano magazzino), e repórter, do inglês reporter, (através do francês reporter) evidenciam esse processo natural entre os idiomas que é a ação de uma língua sobre a outra. Vejam que estamos usando estrangeirismos. A diferença é essas palavras já estão aportuguesas e entraram no processo da língua naturalmente. Nós as assimilamos como se fossem palavras correntes sem nos darmos conta de que são de outras línguas.
A renovação vocabular A língua se renova através dos neologismos. São palavras, expressões ou sentidos novos que aparecem em relação ao léxico. O neologismo se constitui de palavras novas que são os léxicos intrínsecos (os de formação interna, com adaptação da fala estrangeira), os extrínsecos (os de importação, incorporação da fala estrangeira) e os semânticos, ou seja, os que assumem sentido novo. A renovação vocabular que se processa numa língua não se dá de modo exclusivo através de línguas estrangeiras. Esse fenômeno neológico ocorre com uma freqüência muito grande dentro da própria língua, já que leva em consideração a existência de significantes já criados, apresentando aspectos ligados à forma ou ao sentido.
Na primeira coluna vemos exemplos em que a própria língua cria formas portuguesas. Na segunda coluna, palavras com adaptação de forma estrangeira, neologismo de palavras já aportuguesadas. Na terceira coluna, palavras incorporadas com a sua forma estrangeira e correntes hoje na língua, ou seja, palavras que estão permanentemente sendo usadas na sua forma estrangeira: são os neologismos. Na quarta coluna, palavras que adquirem outro significado pelo contexto. Vejamos alguns exemplos de neologismos criados dentro da própria língua, por prefixação, dando origem a palavras nova. Exemplos (1): a) prefixação (o prefixo passa a fazer parte de uma nova palavra, de um neologismo): Os países beligerantes firmaram um pacto de não-agressão.
Os sem-teto alojaram-se no edifício abandonado. Comprou um telefone celular pré-pago.
b) substantivação de prefixos: Você já foi ao super hoje? (super em vez de supermercado) Na falta do deputado, assumiu o seu vice. c) sufixação:
Assiste-se, hoje, à favelização das cidades.
Era na cidade onde grassava a pistolagem. d) truncagem: Especializou-se no euromercado. e)derivação de siglas: O Éfe-agá (de Fernando Henrique Cardoso > FH) promoveu a ascensão do pefelismo (de PFL > Partido da Frente Liberal). Esse foi criação de Luís Fernando Veríssimo.
Vejamos agora exemplos de novo significado pela questão semântica. Exemplos (2): A beleza daquela moça fazia dela um avião.
O rapaz estava babado pela moça.
Passava o tempo inteiro no maior barato. Inegavelmente, era ele o cobra da equipe. Falava demais, era uma gralha. Confessou haver intermediado o negócio, porém na condição de laranja.
Era, definitivamente, um chato, um mala. Além de incompetente, era um pavão. O menino levou um sabonete do pai por ter sido imprudente. Errou todos os palpites: só deu zebra. Estas são palavras já constantes da língua, mas com novos significados.
Os estrangeirismos As gramáticas tradicionais, dentro dos estudos lingüísticos, classificam como barbarismo o uso de palavras estrangeiras no capítulo chamado Vícios de linguagem. Como justificativa para esse procedimento, alegam os autores que tais barbarismos significam, quase sempre, o emprego de palavras estranhas à língua na forma ou na idéia, ou inteiramente desnecessárias ou contrárias à sua índole. Alguns gramáticos, inclusive, chegam a afirmar que o uso de estrangeirismos abastarda a nossa língua. Visto nessa perspectiva, pode-se dizer que o estrangeirismo, historicamente, assume um caráter se não totalmente negativo, pelo menos crítico, já que aparece listado juntamente com os solecismos, a cacofonia, a obscuridade, entre outros defeitos de linguagem. Se a tradição gramatical portuguesa vê o uso de estrangeirismos como um barbarismo, não se pode afirmar que, modernamente, talvez pelo efeito de uma nova cultura fragmentada e instável, se possa pensar do mesmo modo, embora se saiba que, hoje, barbarismo é o nome que se dá à forma de uma palavra que não é gerada pelas regras da língua e, em particular, pelas regras morfofonológicas, numa determinada época. O que se pode dizer, hoje, em relação a esses barbarismos, é que se, antes, os termos estrangeiros causavam espécie quanto ao uso, hoje a situação se inverteu: o barbarismo é, agora, um aspecto lingüístico que precisa ser repensado, tendo em vista que os falantes, de um modo geral, sentem-se valorizados ao usar o termo novo, muitas vezes estranho, mas expressivo: as palavras estrangeiras passam a ser valorizadas, porque os tempos são outros. Há alguns anos, as novidades que vinham do outro lado do Atlântico, levavam algum tempo para serem conhecidas. Hoje, elas estão à nossa volta, convivemos com tudo o que é novo no instante em que aparecem. Inclusive a língua.
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