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Idioma e Soberania - Nossa Língua, Nossa Pátria
Empréstimos Lingüísticos: Tradição e Atualidade Volnyr Santos (segunda parte) - Quinto postulado: A língua varia no tempo, no espaço social, no espaço geográfico e num mesmo indivíduo. No que respeita ao léxico, este está em constante expansão Uma língua não é jamais, numa época, num lugar e num grupo social dados, igual ao que ela é noutra época, em outro lugar e em outro grupo social. O princípio de variação lingüística mostra a existência de diversidades no interior de uma língua, assim como o fato de que o desempenho lingüístico dos falantes pode variar de acordo com os contextos (o lugar, grupo social). Visualizando:
Em relação ao quadro, é preciso entender que as diversas variedades coexistem no tempo e no espaço, sendo utilizadas numa mesma época e numa mesma região, deixando, por isso, de se constituir em departamentos estanques. Advêm daí as variedades geográficas o modo de falar sulista, mineiro, nordestino etc. , assim como as variedades sociais a língua culta e a língua popular , e as variedades comunicacionais a língua formal e informal. Apenas como uma breve exemplificação, primeiramente sob o ponto de vista diacrônico, depois sob a perspectiva sincrônica, vou dar uma mostra dessa variação lingüística. Sob a perspectiva diacrônica, um exemplo de texto antigo, (onde Pero Vaz de Caminha fala como são os índios), reescrito em linguagem moderna, é expressivo. Observem a forma como está escrita. A linguagem utilizada nessa carta está localizada num certo tempo e retrata o modo de escrever nessa mesma época.
Texto original (Fragmento da carta de Pero Vaz de Caminha, enviada a El-Rei D. Manuel em 1500): "...afeiçam deles he seerem pardos maneira dauermelhados de boõns rrostros e bons narizes bem feitos. / amdam nuus sem nenhuua cubertura, nem estiman nhuua coussa cobrir nem mostrar suas vergonhas, estam açerqua disso com tamta inocemçia como teem em mostrar orrostro. / traziam ambos os beiços de baixo furados e metidos por êles senhos osos doso brancos de compridam dhuua maão travessa e de grossura dhuua fuso dalgodam e aguda na põta coma furador. / mete nos pela parte de dentro do beiço e oque lhes fica antre obeiço eos demtes he feito coma rroque denxadrez e em tal maneira o trazem aly emcaxado que lhes nom da paixão nem lhes torua afala nem comer nem beber..". Texto modernizado: "... A feição deles é serem pardos, um tanto avermelhados, de bons rostos e bons narizes, bem feitos. Andam nus, sem cobertura alguma. Nem fazem mais caso de encobrir ou deixar de encobrir suas vergonhas do que de mostrar a cara. Acerca disso são de grande inocência. Ambos traziam o beiço de baixo furado e metido nele um osso verdadeiro, de comprimento de uma mão travessa, e da gordura de um fuso de algodão, agudo na ponta como um furador. Metem-nos pela parte de dentro do beiço; e a parte que lhes fica entre o beiço e os dentes é feita a modo de roque de xadrez. E trazem-nos ali encaixado de sorte que não os magoa, nem lhes põe estorvo no falar, nem no comer e beber." (ARROYO, Leonardo. A carta de Pero Vaz de Caminha. São Paulo: Melhoramentos, 1971). Vejam neste exemplo que a língua é a mesma. As formas como as cartas estão escritas é que são diferentes. Vemos o mesmo texto situado num outro momento histórico. Essa variação diacrônica pode ser percebida num período relativamente mais curto da evolução lingüística, bastando lembrar o caso da gíria, sua atualidade e, ao mesmo tempo, sua efemeridade. Sob a perspectiva sincrônica, isto é, num mesmo estágio evolutivo (a língua no momento da fala), a língua oferece uma grande variedade de usos, caracterizando, como se pode ver, o dinamismo que distingue o fenômeno lingüístico. São exemplares algumas construções nas quais se nota o problema da variação lingüística em relação à regência de alguns verbos. 1. Com o verbo aspirar: Uma paz que aspirava há tanto tempo. (José Lins do Rego) O que aspiravam na realidade era um comandante. (Darcy Ribeiro) 2. Com o verbo pagar: Não pagaram a costureira. (Rachel de Queiroz) Pagaram o carregador. (Oswald de Andrade) Quem pagaria os trabalhadores? (José Lins do Rego) 3. Com o verbo perdoar: Vitória não as perdoava. (Clarice Lispector) 4. Com o verbo querer: "...sentia que os queria mais que a todos." (José Lins do Rego) 5. Com o verbo visar: Ela visa o bem público. (Jorge Amado) Observem que em todos os exemplos as regências aparecem com objetos diretos e que todos esses textos têm o respaldo de autores importantes da literatura brasileira. Se aquelas regências tinham objeto direto, na realidade o que a língua propõe é o verbo como transitivo indireto. Tais regências, com objeto direto, convivem normalmente com a regência transitiva indireta: 1. Uma paz a que aspirava há tanto tempo. 2. O a que aspiravam na realidade era um comandante. 3. Não pagaram à costureira. 4. Pagaram ao carregador. 5. Quem pagaria aos trabalhadores? 6. Vitória não lhes perdoava. 7."...sentia que lhes queria mais que a todos. 8. Ela visa ao bem público. O que se quer mostrar com essa circunstância é o fato de que a regência tansitiva direta dos verbos representa, não erros, mas variações a que a língua está sujeita dentro da sua própria sincronia, comprovando que, em relação à língua, não há lugar para o estaticismo.
Sexto postulado: O empréstimo lingüístico é efeito e não causa Os empréstimos lingüísticos são tão antigos quanto as próprias línguas e caracterizam as influências que determinada língua sofreu através dos tempos, pelos elementos lingüísticos que perfilhou, representação dos elementos culturais diversos que também importou. A língua portuguesa sofre os efeitos de outras línguas: inicialmente, do francês, já que a corte portuguesa era de origem francesa (dinastia de Borgonha). Ocorre também nessa época a instalação de várias ordens monásticas originárias da França. Nos textos usados pelos monges para as aulas de gramática, lógica e teologia apareciam termos emprestados do francês e também do provençal Como idioma moderno, no século XVI, o português vai sofrer influências, agora da língua espanhola: primeiramente, por causa dos casamentos de soberanos portugueses com princesas espanholas, o que vai provocar uma espécie de castelhanização da corte; em segundo lugar, os sessenta anos de dominação a que Portugal se vê submetido politicamente (1580-1640) vão acentuar o prestígio da língua espanhola na vida portuguesa. Sem nenhum exagero, pode-se dizer que o bilingüismo perdurará dois séculos e meio em Portugal, período que o espanhol funcionará como uma segunda língua de cultura. Os escritores portugueses mais importantes dos séculos XV, XVI e XVII, tais como Gil Vicente, Sá de Miranda, Luís de Camões, Francisco Manuel de Melo vão escrever em língua espanhola. A influência é tão intensa, que Jorge de Montemor, o autor de Diana, hispaniza o próprio nome para Montemayor e abandona a sua língua. A partir do século XVIII, a língua espanhola deixa de exercer influência, que volta, então, a ser exercida pelo francês, já que é nos livros franceses que os portugueses vão buscar boa parte de sua cultura. Segundo Nelly Carvalho, no século XVIII, a Península Ibérica ficou à margem da Revolução Industrial que se dava na Inglaterra. A evolução do saber e a rápida evolução científica obrigaram os portugueses (e espanhóis) a uma permanente adoção de novos termos para nomear realidades nascidas fora das fronteiras lingüísticas desses dois países. Com o domínio econômico e tecnológico da Inglaterra, os países ibéricos se sujeitaram ao uso de termos da língua inglesa, já que esse era o idioma usado para os intercâmbios econômicos. Em resumo, observamos as seguintes influências: Século XII - francesa Séculos XV, XVI , XVII - espanhola Século XVIII - francesa Século XIX - inglesa No Brasil, no século XIX, também o francês, como língua de cultura, passa a ter uma importância muito grande. É ainda no século XIX que a língua inglesa começa, aos poucos, a introduzir-se. São inglesas as primeiras grandes empresas que vão instalar os serviços públicos brasileiros, tais como o transporte urbano e interurbano e comunicações. É dessa fase a introdução de algumas palavras inglesas que, aportuguesadas, têm hoje uso corrente na língua, como é o caso de chulipa, que outra coisa não é senão o nosso prosaico dormente. A palavra em inglês sleeper , ouvida pelos operários brasileiros, soava simplesmente chulipa e assim passou a ser repetida. É a partir da Segunda Guerra Mundial, no entanto, que a língua inglesa vai começar a influenciar diretamente o português. Só que essa predominância, agora, se dá sob a hegemonia dos Estados Unidos pela ação das multinacionais cuja expansão tecnológica, econômica e lingüística se processa de modo acentuado. A esse dado, some-se a circunstância de a economia brasileira ser de base essencialmente agrícola, já que a industrialização no Brasil se deu somente após o ano de 1930. Fica extremamente fácil perceber as razões pelas quais, após 1950, vai-se acentuar a preponderância da língua inglesa na vida brasileira. Não só a tecnologia que traz o avanço de que o Brasil carece, mas, sobretudo, uma linguagem peculiar que acompanha um conhecimento teórico ou prático. Os empréstimos lingüísticos, com o sentido moderno da expressão, passam a ser uma realidade na língua portuguesa, a ponto de serem integrados ao léxico. Se na primeira metade do século XX a luta contra os galicismos era uma questão de suma importância para a conservação do purismo lingüístico português, a partir do final do século será a informática a ciência que irá contribuir com o maior número de palavras inglesas para a língua portuguesa, gerando, como se sabe, toda a sorte de manifestações. Em resumo, no Brasil, cuja relação com a cultura se dá de modo atrasado, vamos verificar que: Século XVIII - francesa Século XIX - inglesa Século XX (início ) - francesa (Segunda Guerra Mundial inglesa) Século XX (fim) - inglesa O que se quer mostrar é que o empréstimo lingüístico resulta de um processo social. Na realidade ele é apenas o efeito desse processo, e não a causa.
Sétimo postulado: Em se tratando de língua, a lei não é legal Nenhuma legislação com relação à língua é legal. Esse dado me parece importante, porque na realidade vamos verificar que tudo que se fez legislando com relação à língua não funcionou. Não pode se pode legislar em relação à língua. Não se tem notícia de sociedades em que se criaram legislações para mudar, transformar, alterar, inibir ou controlar o uso da língua e que isso tenha gerado resultados significativos. Em linguagem, as leis que realmente funcionam são as leis da própria língua. A respeito, manifestava-se o professor Celso Cunha, no livro Língua Portuguesa e Realidade Brasileira, em relação à criação de palavras com formação latina para substituir estrangeirismos que, na época final do século XIX, início do século XX , eram considerados vícios de linguagem: 1. carnet - choribel 2.meeting - concião * 3.cache-nez - focale * 4.tourist - ludâmbulo * + 5.pince-nez - nasóculos * + 6.parvenu - plutenil 7.reclame - preconício * + 8.massagem - premagem 9.avalanche - rulimol 10. claque - venaplauso * Consta do Vocabulário Ortográfico da Língua Portuguesa. + Consta do Novo Dicionário Aurélio. Vemos nestes exemplos que as palavras estrangeiras que entravam na língua encontravam uma palavra própria para expressar o significado daquele termo em português. Não tenho conhecimento de que alguém use qualquer dessas palavras estrangeiras, mesmo voltando à língua latina para formar a palavra nova na fala portuguesa. Observem que grande parte delas consta do Vocabulário Ortográfico e algumas constam do Novo Aurélio. Na realidade nós simplesmente não usamos essas palavras. O ensinamento que fica parece ser o da inutilidade de tentar legislar sobre a língua. Ao contrário, na opinião de Celso Cunha, talvez seja mais eficiente a análise das circunstâncias que determinaram a aclimatação de palavras estrangeiras em nossa língua. Um estudo dessa natureza poderia revelar os aspectos que não temos muito claros de nosso próprio desenvolvimento lingüístico. O que se quer mostrar é que, em relação à língua, lei não funciona. A única lei que funciona na língua é a própria lei lingüística. Por exemplo, a lei do menor esforço. Essa língua vai funcionar porque vai facilitar a comunicação. Agora legislar, de certo modo, definindo o modo como as palavras e a lingüística devam funcionar, isso realmente não funciona.
Os empréstimos lingüísticos: Uma questão ortográfica A exposição feita até aqui procura traçar, em linhas muito amplas, uma reflexão sobre o problema lingüístico que envolve o uso de palavras estrangeiras as quais, atualmente, circulam, em sua forma original, nos meios de comunicação, livros, estabelecimentos comerciais, painéis, influenciando, inclusive, a vida cotidiana. Como ponto de referência para a discussão do problema, tenho presente que o encaminhamento de procedimentos a respeito não podem deixar de levar em conta aspectos que, resumidos, indicam que, sendo a língua um produto social, ela será sempre uma forma de expressão dos usos e costumes da sociedade que a utiliza. Ao mesmo tempo, é preciso lembrar que essa língua se constrói num processo de trocas, influenciando e deixando-se influenciar, confundindo lingüisticamente, quase sempre, aquilo que é seu com o que não é. Também não se pode omitir que toda língua, como fato social, apresenta variações, mudando como qualquer outra instituição social. Finalmente, deve-se dizer que ela não se submete senão às suas próprias leis e que, como instrumento de comunicação, a língua é uma coisa viva e, portanto, infensa às circunstâncias que a envolvem. Se é que se pode exercer algum controle sobre a língua, essa circunstância se restringe, de modo específico, à sua forma ortográfica, já que isso implica o reconhecimento de uma norma escrita em relação à qual se julga a adequação das formas que realizam os indivíduos que escrevem uma língua. Em outras palavras, em relação aos empréstimos lingüísticos, o tratamento que a língua deve dar às palavras que devem ingressam na língua portuguesa deve resumir-se à ortografia. Ora, se a língua é um produto social, se ela é uma forma de expressão da sociedade que a usa, se ela se constrói num processo de troca, se apresenta variações lingüísticas e se se submete às próprias leis, deve haver um modo de lidar com as palavras estrangeiras. O controle da língua, se é possível fazer, só pode se dar por instrumentos legais que estejam ligados à questão da ortografia. Se não for em relação à ortografia, qualquer controle sempre vai se mostrar inócuo. Portanto, o instrumento legal que pode ser acionado nessa questão é a ortografia oficial brasileira, através do que preceitua o parágrafo único do Art.5° do Projeto de Lei n° 1.676/99, do deputado Aldo Rebelo. (A ortografia oficial brasileira consta do Vocabulário Ortográfico da Língua Portuguesa, publicado pela Academia Brasileira de Letras em 1998, que foi regulada por aquela academia na sessão ocorrida em 12 de agosto de 1943, mandada adotar nos documentos oficiais pela circular de 5 de julho de 1946, da secretaria da presidência da República, pelo Decreto-Lei n° 2623, de 21 de outubro de 1955 e pela Lei n° 5765, de 18 de dezembro de 1971.) Uma borboleta pode exprimir e simbolizar um processo de transformação. A crisálida permite a passagem da ninfa em borboleta. Diz-se que isso é um processo latente. É preciso mostrar a língua também como suscetibilidade dessa latência; isto é, que os aspectos de transformação já estão na própria língua.
O aportuguesamento de palavra estrangeira O léxico português O léxico de uma língua - expressão aqui também entendida como vocabulário - é o inventário completo dos vocábulos que constam de um dicionário. A língua portuguesa, conforme o seu Vocabulário Ortográfico, editado pela Academia Brasileira de Letras (ABL), de 1998 (reimpressão de 1999 da 2a. ed.), registra, nas palavras de Arnaldo Niskier, 350.000 verbetes, informando que esse número deverá crescer brevemente em face da possibilidade de entrada em vigor do Acordo Ortográfico.
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